quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Estória De Escritores


 


 Por Sylvia D' Sousa

 


 
          Há um poeta fantasma que fala na nossa mente entorpecido de lirismo. 
Há dois poetas que pelo tempo gasto com drogas e festas se contraem com algum tipo de letargia. E há outro que não se nomeia e que por 60 anos levou presentes para a tumba do seu mestre.
Desde a lamparina no quarto até a sombra das mangueiras do quintal alheio uma pessoa descreve a chuva, o vento, a safra e até mesmo quando as folhas caem e pode sorrir e chorar com isso.
Sofredor é o melancólico que amou tão profundamente chegando aonde o sol não entra. E como todo sofredor seu final foi trágico e mitológico. Mas ainda posso reler as matérias dos jornais da época.
Teve gente que se escandalizou com  Tostói russo machista. E não souberam do sadismo de James Joyce. Ou não souberam que Agatha Cristie não desenhava as letras. E também devo lembrar a quem se esqueceu  de que tanto Hamingway quanto Sylvia Plath herdaram da família uma herança suicidla.
 Eu escrevo sentada em minha escrivaninha e se não a encontro e se estou num hotel. Escrevo como posso pra não ter mania de Victor Hugo que só escrevia em pé apoiado em uma mesa e era assim também Virginia Woolf. Uso tintas pretas e azuis. Pablo Neruda preferia verde.
         Já escrevi belas estórias de heróis e poetas malditos. Quis a todo custo me destacar de alguma forma até mais que o segundo personagem e nem de longe poderia receber a gloria de  Malba Tahan que morreu no deserto lutando por sua tribo.
        E ainda se for falar dos homosexuais. Oscar Wilde também amou uma mulher. E nem todos foram poetas. Houveram compositores que se tornaram escritores. Sydney Sheldon começou numa banda.
       
      

 

         Há aqueles que não se apegam ao antigo. Que cortejam a modernidade. Que tem a mente visionária a ponto de decolar tão cedo com tanta beleza. E trazem na forma e na fala uma linguagem libertária. Com fervor aos 17 anos a vida é sangue e tinta no papel. A vida fluí num tempo que não o encaixa e o esmaga entre o verbo e a sinergia dos sentidos. 
Era assim Arthur Rimbaud. Esse rosto jovem e marcante. Amo com sua juventude eterna e sua poesia livre.
        Todo dia ao acordar repenso um poema. E não o faço pela graça das métricas. Muitas se desbotam antes que alguém leia. E também muitas vezes a gente muda de ideia. 
 É que não dá pra correr com o tempo. Silenciosamente ele se desfaz. Toda noite sei e sinto a minha própria solidão e como lidar com isso sem fumar um cigarro?! O céu depende de uma nota ou uma frase porque então ele não existe. O vento precisa soprar e a terra precisa também que você pense e que você esqueça. Ou que interprete uma obra prima.
        
        O isolamento do escritor é uma tradição. Uma lenda e uma verdade.
O café. A cocaína. O haxixe. A maconha e o tabaco se mesclam com a alma daquele que cria.
E não é de agora. Será que poderão lembrar de Charles Baudelaire? O poema do Haxixe não deixa de ser uma viagem muito próxima da nossa realidade. Embora eu não pretenda ser Deus. 
       
        Daquela que dominava meu idioma e que mais perto esteve das minhas inspirações quero aprender e gravar na memória seu rosto e suas obras. Mas quero lembrar do pouco que  a vi falar quando no final de suas inspirações sentiu o vazio da vida que já não se expressava mais como antes. Da vontade de ligar o gás da cozinha e botar a cabeça no forno. 
 A loucura de Clarice Lispector é brilhante ! Fiquei mais a vontade com seus livros do que com a minha nudez. É que no final a  gente interpreta e se liberta.

         E por falar em liberdade. Reconheci na pele de uma escritora que buscamos o movimento nas palavras. A MELODIA das estórias nos dá a chance de  achar na sua  essência uma criação pessoal na construção de um personagem. Que aos poucos terá vida própria.
       Mas não devo terminar assim este texto. Deles todos serei a menos implacável. Por sorte ou azar tenho contato com as ciências arcanas.
       Minhas estórias foram as menos preciosas neste mar de informação e construções de personagens narcisistas. Notei nas plataformas que há uma febre por estórias e personagens híbridos e ainda estão em alta aqueles velhos vampiros em trajes mais sofisticados é claro. 
     As séries de amor são as mais idiotas ao meu ver. Porque trás uma conotação sexual muito clichê. 
E enquanto eu procuro por um livro raro, o preço por um usado me assusta!  E maior que o preço é a quantidade de livro disponível: Apenas dois em todo o planeta. 
    Encontraria em outras edições certos magos cabalísticos muito mais equipados salvos do século XIX. Pagando menos da metade. O estilo do novo Drácula por exemplo faria Bram Stocker revirar os ossos na tumba. 
    E devo me lembrar dos filmes que dão importância aos escritores seletos. Mas se esqueceram de garimpar novos talentos. 
     As Editoras que invadiram a nossa praia com traduções de obras estrangeiras. Das estantes lotadas de obras MADE USA. E quase nada dos blogs daqui. Tem muita gente boa que escreve ficção. Mas que de repente tá perdido entre um nicho e outro. Ou tá fumando um baseado na praia.

   Vamos construir uma mundo novo em cima de todo esses escombros. Estou mesmo preparada para me libertar de Sócrates, Platão! Sou de uma academia undergroud e somos perseguidos pela lei.
      Podemos arrastar uma multidão com alguma novidade. Podemos cega-las com bobagens.
Esse reformatório psicodélico que alguns chamam de misticismo nas literaturas jovens é na verdade um apelo ás novas drogas e dessas novidades o inferno tá cheio.
       Em tom sublime é vendida a literatura. 
      Edgar Allan Poe morreu pobre. Jack Kerouac também. Oscar Wild gastou tudo o que tinha. Um escritor não é um Pop Star. Ele deseja ser uma estrela que brilha por conta própria.