Silvia D’
Sousa apresenta seu novo livro; ”o beijo da Rainha”. Relatos sobre sua
experiência com o amor, sonho e desilusão de uma crença numa certa felicidade
pessoal. Tomou a liberdade de traçar em palavras os contornos de um sentimento
vivido até seu desencanto.
O beijo da
rainha é uma junção de amor e ódio. Ainda que pueril, porém, belo na forma de
contar uma estória quase em versos.
”Sou responsável pela minha desilusão;
criamos um altar para o nosso objeto de adoração. Mas o amor é independente da nossa devoção. Ele brilha e escurece. Somos expectadores mortais de uma existência completamente livre das nossas decisões”.
criamos um altar para o nosso objeto de adoração. Mas o amor é independente da nossa devoção. Ele brilha e escurece. Somos expectadores mortais de uma existência completamente livre das nossas decisões”.
Eis meu
verso infinito à deusa do amor.
Silvia D’Sousa

Se o amor é plenitude íntima e independente do
indivíduo, vou contar como ele nasce. Sua expressão mais pura é um pensamento,
uma idealização de um mundo perfeito que não sabemos até então que não existe.
Protegidos em nossa capsula de ternura envolvidos no
calor materno nada é percebido ou sentido a fora dessa bolha de afeto consanguíneo.
Até que somos abraçados e beijados pela primeira vez. Um mundo novo e
florescente se abre. E isso acontecerá com cada embrião esperando florescer na
terra.
Dizem que a primeira expressão do mundo a fora
começa com o som, que ainda não fará o menor sentido para o bebê. Depois ele
experimenta o som distorcido de uma emoção negativa de alguém que vive a
experiência da dor e do sofrimento. Nesses dois extremos experimentamos a
atmosfera do amor e do ódio.
Ódio. Palavra que ninguém esquece milhões de vezes
faladas. Não é contemplada como a lua, o sol ou as estrelas.
Dentro desta palavra existe uma fórmula sombria que
esconde de nós a beleza de tudo. Até mesmo da dor e do sofrimento. Do
nascimento e da morte.
Já não me sinto tão jovem para correr em alta
velocidade nessa estrada aventureira. Para beber um drink e profanar as deusas
sagradas do amor. Ficar indiferente aos sentimentos alheios. Mergulhar no drama
de Shakespeare. Aliás, jamais encontrei algo superior à estória destes amantes
proibidos nascidos para amar e morrer num único beijo.
A literatura destaca o amor e o ódio. Porém com
lindos e implacáveis detalhes que irão adornar a realidade cotidiana de cada
ser contemplado com a vida.
Para falar de amor é preciso perder a vontade de
estar presa.
Ter asas que envolvem o corpo e a alma.
Buscar nas profundas sabedorias a essência desta
troca.
Onde o ser humano consegue enxergar outra imagem que
não é a dele.
Um espelho que mostra outro universo a ser explorado
de fora para dentro e de dentro para fora.
Como observadores que nos tornamos, logo percebemos
que existem o ambiente, o objeto, as pessoas, os pensamentos, as sensações e as
diferenças.
Existe a empatia, a antipatia e a adoração.
O desejo, a paixão a entrega e a devoção.
Tudo pode acontecer num único segundo, pode até
durar anos ou nunca acabar. O amor se move numa dinâmica não linear. Existe
como o concebemos, com a nossa cultura, com a nossa percepção, mas acima de
tudo com a nossa intimidade.
Ele se levanta das cinzas, desafia a morte, faz
juras a Deus e ao Diabo.
Busca um par. Um cúmplice. Um interlocutor.
Embora algumas vezes ele também seja apenas
platônico; sabe por sua própria natureza que ninguém é uma ilha.
Mas o amor parecerá leve depois de uma longa
caminhada. Até que se torne a expressão mais pura da beleza.
Certo dia estava tudo em paz.
O mundo era denso, sonoro e divertido, portanto em
ordem.
Estranho, popular.
Inseguro, dependente.
Eu estava na ponte que liga o desejo ao paraíso de
todas as volúpias.
Comprei um maço de cigarros, fumei a carteira
inteira para tomar uma decisão que mudaria todo o meu destino, traçado pelos
deuses modernos, mas isso foi antes dos dispositivos móveis e dos aplicativos
que conhecemos.
A decisão foi ligar para aquela que eu achava a
menina mais bonita do bairro.
Até os meus 15 anos eu não sabia que as pessoas
cuspiam nas meninas que gostavam de meninas.
Eu sabia que era um assunto polêmico.
Eu sabia que o movimento feminista era alvo do júri
popular como partido de lésbicas. Mulheres não podiam manifestar suas ideias
ainda. Isso porque já era década de 90. Não existia mais aquele blazer Coco Channel
tão sexy nas mulheres. A música mais tocada era aquela que dizia assim: É preciso
amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar para pensar
na verdade não há.
Então eu peguei o telefone e liguei. E passamos
horas conversando.
Daí ela foi me encontrar no meu apartamento que
ficava apenas a 1km de distância do dela. Quando o interfone tocou, ela disse:
Trouxe uma pizza, vamos assistir Lua de Fel?
Não deu outra.
Uma dose de conhaque com limão e gelo.
Duas doses de balantimes com limão e gelo.
E depois. O primeiro beijo.
Fogos de artifícios eram assistidos em meus olhos.
O amor era a coisa mais incrível.
O amor me levou ao êxtase por dias e noites.
Não pregava os olhos.
Estava em estado de profunda contemplação.
Sob o efeito
colateral de um beijo, desejei a caricias dos desejos. A loucura momentânea. A
passividade dos amantes que se entregam e se amam como se o dia nunca fosse
acabar.
Chega um dia que acaba.
Acabou de um jeito triste.
Ela foi morar no Japão. E eu fiquei vários aniversários
na mesma cidade até perceber que o amor se tornou uma fotografia na minha
carteira e uma poesia no meu diário.
Fora a primeira em que eu derramei uma lágrima de amor.
Enquanto crescia, doía.
Enquanto dormia, esquecia.
Enquanto amadurecia, fingia.
Enquanto ela casava e tinha filhos. Enquanto a lua
cheia vinha e voltava e regulava as marés, as horas passavam mais depressa. As
vontades mudavam. As roupas apertavam.
Mudei de cidade. Passei a amar os fins de tarde sem
recordações de primeiro beijo; mas tinha saudade de amar de novo. De viver de
novo para o que fomos feitos.
Dessas canções que o rock perpetua nas nossas
cabeças, tirei uma vontade de experimentar o calor de um homem. O cheiro dele
me dava calafrios. No começo eu não queria querer. Mas ele era muito charmoso e sabia contar
lindas estórias.
Quando tivemos nossa primeira noite de sexo. Percebi
que havia mudado muito.
Pensava que estava tendo uma relação séria.
Mas o que ele queria era apenas sexo.
Corri para o meu quarto e chorei.
Era paixão, tortura, prazer, ternura e desprezo,
enfim, as mazelas do amor. A periferia dos sentimentos mais chinfrins. Aquela
de ir com todas para cama. Os bacanais sôfregos e vulgares, onde a mulher uiva
e o homem urra.
As bijuterias amorosas. Versos de boteco.
Ácido na boca, tudo desconexo.
Ácido na boca, tudo desconexo.
Certo dia.
Acordei com uma pessoa que eu não queria.
As paredes de concreto e o cheiro do seu perfume me
esmagaram num inferno de abominações.
É que o amor não gosta de ser confundido.
E eu não conhecia a limpidez do seu altar.
Eu via tudo em 3D como a maioria via.
Sem a menor noção do infinito. E o que era mais
frágil, me importando muito com a aparência.
Era a juventude nosso maior troféu.
A loucura das tentações! Tais luxúrias irresistíveis
e totalmente ausente de glória.
Gozamos. E continuamos insatisfeitos.
Quando mais quer escapar, mas se aprisiona.
Conquista-se, mas nunca é o bastante.
Eis a benção e a maldição se relacionando.
Uma coisa que nós nem podemos refletir.
Imprevisíveis tempestades.
Emoções cheias de delírios tolos.
Um amor sem mistério.
Muito claro.
Muito comum.
Sim! Mas ainda podemos chamar de amor.
Somente após meus 25 anos; arquitetei minha vida
baseada na forma do amor ideal.
Desses que não se quebram. Desses tão firmes que não
se partem.
Era união e conexão.
Casamento cósmico ou algo assim. Pessoas que se
queriam até o fim.
Dentre tudo isso, veio o vício.
Desses que separam amantes liberais.
Desses que cortam os liames da paz.
Desses que querem se matar.
Tão egoístas viagens. Sobre uma liberdade sagaz.
Detonando nossas cabeças.
Tão infernais vontades soltando os nossos freios.
Tormentos temperamentais. Um tipo de lisonja ao
drama das paixões humanas que viu um dia uma coisa linda que brilhava e que num
segundo se apagou para dá vazão à desilusão.
E então ficou vazio o coração, adornado de espinhos.
Podia ser uma metáfora mais fácil. Bastava
selecionar e dar o play quando quisessem assistir de novo.
Viver esse
amor duvidoso. Esse amor desgastado.
Sair pelas portas do fundo em busca de solidão
Foi muita decepção. Compartilhar cada dia por dez
anos. Em estado de embriagues.
Poucas vezes percebi que tudo o que eu sonhei havia
se realizado. Não existiam mais novos planos. Não existia mais investidas e nem
seduções.
Os detalhes sobre nossa jornada não passavam de dias
após outro sem ambições.
O amor era uma coisa de irmãos.
De amigos que divergem de opiniões. Não se combinam.
Não se acertam. Não se elogiam. Não se enfeitam. Não brindam.
Apenas dançam na sala.
O amor fica
em silencio.
Escutam, não opinam.
Desacreditam, mas não desabafam.
Até que ele se vai como um trem partindo.
Uma estação nova surge sem nenhum desejo ou sonho.
Sem romantismo. Alguns avisos de perigo.
Alguns desvios de caminho.
Coisas de uma natureza dominante que o amor esconde.
Presente para quem sente. Ausente para quem não
conhece.
Os artifícios de uma liberdade sincera.
Esta de não ser de ninguém e não ter hora para
chegar em casa.
O amor ideal não existe.
Tantas voltas e sempre se chegará sempre no mesmo
lugar.
É que o amor a dois tem preço.
São empatias temporárias.
Aventura de cama e de uma mesa de jantar, todas as
noites no mesmo horário.
A novela real para cada ser que se depara com um
amor medido.
Controlado. Um amor que não se julga eterno.
Eterno é tempo demais para os mortais.
Mas mesmo os deuses erraram por amar
Os anjos caíram por amar.
Os mortais sabem que a vida acaba.
Que o amor acaba.
Que a eternidade é uma fantástica e importante
esperança para um mortal.
Sonhos confusos me fizeram duvidar do amor.
Sucubus libidinosos e entregas muito passionais me
fizeram duvidar do amor.
Ao ouvir o chamado da lua, cujos feitiços fêmeos
espalharam-se pelos ares odores de desejo e coisas impossíveis, para dois seres
da mesma esfera.
Ali estava sob o encanto da rainha.
No altar de suas crenças: a família, o trabalho, o
status e a solidão.
Na sua alma, uma chama. Seu próprio fogo seduzindo
quem a ela preso estava.
Seus caprichos charmosos me lançaram abraços e
relances de ternura.
Criei a beleza dela enfeitando a minha vida de doçura.
Com palavras e canções.
Com idas e vindas, natais, páscoas, dia de ações de
graça...
Ela era uma estrela vermelha prometida.
Uma dançarina a céu aberto rodopiando com sua saia.
Tinha tudo para dar certo. Eu sabia.
Ela talvez tenha duvidado.
Ela talvez tenha duvidado.
Mas logo se atirou em meus braços.
Uma joia eu possuía,
beijos de rainha ao nascer do dia.
beijos de rainha ao nascer do dia.
O tempo parou para mim.
Era o eterno que eu perseguia.
Era o eterno que eu perseguia.
Um amor desses não podia ter fim. Não podia!
Todo começo do mundo que não permitia
Contido no beijo daquela rainha.
Todo o começo do mundo que eu não conhecia.
Apenas no beijo da rainha.
O tempo não passava como se passa o dia e se ver o
final da noite
Não se acorda assim de um sonho.
E os adereços de uma cena que se repete
Nunca viram trapos. Nunca ficam gastos.
Nossa entrega foi extrema.
Mas tão poucas, como amores de verão.
Eu não conhecia uma deusa até o dia que beijei seus
pés.
Minha estirpe é da mais tímida poetisa.
Mas não ao eleger a dona do meu coração.
Gostava de saber que era desejada.
Mas as deusas não são atiradas.
Mas as deusas não são atiradas.
Elas se entregam placidamente e especialmente em momentos
onde a loucura e a lucidez se tocam.
Seus invernos são cheios de abraços
Suas mãos são quentes.
Revivo.
Sua boca era quente. Sua língua era quente.
Seus pés eram sensualmente quentes.
Mas porque rainha?
Porque era a única e a primeira para sempre.
Porque as deusas corrompidas tinham inveja.
Do quão sagrado era nossa entrega.
Não sabiam que os astros amavam nos ver felizes.
Que nossos sonhos se pareciam
Que as nossas diferenças não contavam
Uma pessoa; um universo, e um grande talento para o amor
surreal.
Talvez o mais sincero voto de submissão.
Tomei seus pés.
Conheci seus contornos de olhos fechados.
Conheci seus contornos de olhos fechados.
Os sentindo em minha boca.
Deslizando com a minha língua.
Enxergando e decorando a direção.
Deslizando com a minha língua.
Enxergando e decorando a direção.
De suas batidas mais fortes.
Com seu ofegante querer ardendo no meu ventre.
Um gozo.
Mais que isso.
Uma libertação.
Uma libertação.
Ali o amor prometeu ser fiel.
ser paciente e bondoso.
ser paciente e bondoso.
Ser puro,
Mas sobre tudo sincero.
Mas sobre tudo sincero.
Ali fizemos confissões.
Laços.
Laços.
Acordos.
declarações.
declarações.
Ali sempre que eu voltava estava limpa para o templo.
Não podia ser cama.
Tinha que ser um altar.
Não podia ser simples.
Tinha que ser um altar.
Não podia ser simples.
Tinha que ser uma ópera.
Não podia ser um drama infeliz. Não teria que ser
uma trágica união.
O amor se encobria de delírios que abafavam a voz da
sanidade.
O amor era isso. Contudo era pleno. Inteiro. Único.
Era meu.
Eu possuir aquele anjo vadio e sedutor. O amor
febril.
O que pode se atirar e nunca se arrepender pela
queda.
Majestoso é o momento em que uma mulher reúne em si
todas as deusas. De uma só vez. Sem pestanejar.
Foi assim que nasceu o dia. Da sua própria escuridão.
O amor que eu sentia, nascia de mim e para mim
retornava.
Da rainha que elegi, recebi beijos e açoites.
Da rainha que elegi, recebi beijos e açoites.
Ainda assim, permanecia.
Quando ela brilhava para mim, ninguém mais via.
Porque seu corpo estava em minhas mãos e nas minhas
poesias.
Esse beijo que poucos conheciam.
Não é mortal como de uma serpente.
Não. Não mata facilmente.
Ele encanta e envenena lentamente.
Tornei a amar, a ser feliz, a sonhar, a desejar.
Construindo cada dia um imenso castelo para morar.
Chegou a ser tão grandioso que se tornou impossível.
Viver tal querer tão intenso num período tão crítico.
O estágio da madureza e das renúncias que precisam
fazer as pessoas que crescem.
Uma coisa que dificilmente se repete.
E que não se decide no começo.
O amor agora cria suas próprias regras
Ele não pode ficar.
Ele não pode durar.
Ele tem que acabar.
Já não e rico e nem e pobre.
Ele tem que acabar.
Já não e rico e nem e pobre.
Indiferente a tudo.
quase morto.
quase morto.
Pede pra ir se embora na pior hora.
A hora de mudar.
A hora de mudar.
A hora de dizer adeus.
Quando mais forte ele se encontra. Humanizado e
fixo.
Pior é sua dissolução.
É a beleza de tudo apodrecendo.
Um universo fantástico se decompondo.
Um universo fantástico se decompondo.
Enquanto você luta pela sua vida.
morrendo todo dia mais um pouco.
morrendo todo dia mais um pouco.
Você pede para ficar.
Mas ele não te escuta.
Ele implora pela a separação.
Ela é a consequência dos que se entregaram.
Rainha foi desde o momento que eu desejei.
Querer como se quer algo para todo sempre.
Querer como se quer algo para todo sempre.
Todo dia florir e cair.
Como tudo pode mudar?
Quando tudo perde seu efeito?
Como tudo pode descabidamente se inflamar, explodir deixando pedaços por todo lado?
Como tudo pode descabidamente se inflamar, explodir deixando pedaços por todo lado?
Visivelmente destroçado.
Totalmente detonado.
Aquele amor encantado.
Este amor não é literatura.
Embora se exponha em versos.
Em linhas que se separam.
E depois se encontram
Numa nova harmonia
Assim eu queria.
O que nunca o foi.
Qual o verdadeiro nome da deusa expulsa do céu?
Lilith a rainha da escuridão.
Aquela que disse não.
Aquela que se tornou um demônio.
Por ser rebelar.
Por ser rebelar.
Aqui estou, amordaçada por amar.
Aqui estou sucumbindo só em tentar me libertar.
Do julgo desse amor traidor que injetou o ódio
Nas minhas veias.
Ódio.
O amor escurecido e duro.
Ódio o lado manchado de um amor que foi limpo.
Ódio o lado manchado de um amor que foi limpo.
Ódio e vingança de dois corações vivos.
Ódio.
Nos corações partidos.
Seu beijo adoçou minha poesia.
Seu beijo tirou a minha vida.
Aquele amor era tudo o que eu tinha.
O céu existe para os humanos.
O inferno existe para os poetas.
Os mortais vivem linearmente, andando na seta.
Os imortais dão piruetas no espaço.
O sexo existe para os mortais
Para os
imortais existe o Tantra.
Não era minha intenção escrever sobre a mulher.
Foi um rio que se cruzou para descarregar a sua
forma
Num foco de milhões de lágrimas.
Onde milhões de anos gritou Lilith.
Na escuridão de um mundo separado dela.
Primeiro era casta, depois virou puta.
Precisava ser mil vezes sacra para ser mil vezes
corrompida.
Seu esplendor valia todos os diamantes da terra.
De suas entranhas saíram todas as joias mais caras
do mundo.
Para a deusa foi construído um templo.
Soterrado no vale do Indo
A terra de Shiva
O deus andrógino que dançava.
Isis, Estarte, Diana, Hecate, Demeter, kali, Inana
Tantos nomes para uma única deusa
Qual delas poderá definir exatamente
O genuíno esplendor desta entidade
Que deu luz aos museus
E que dela também
Nasceu o
caos.
Kali corta e destrói.
Não quer ver nascer.
Para não matar.
Para não matar.
Mas a final.
Todos padecem.
Isis funda os idiomas. A música e a poesia.
A ciência secreta dos poderes sobrenaturais.
A ciência secreta dos poderes sobrenaturais.
A primeira bruxa.
A deusa mais famosa do Egito.
A deusa mais famosa do Egito.
A magia e o mistério são coisas
Muito atraentes.
Para as almas polidas.
Hecate possui uma caravana de loucos errantes
Nas terras de ninguém
Compõe a liberdade e aventura
Os primeiros sonhos humanos.
Todas as outras são facetas de uma única.
Disseram as anciãs do santuário dos santuários.
La onde eu fiz o meu voto
Pedindo o sentimento de volta.
O céu foi feito para os puros.
O inferno foi feito para os desacreditados.
Mas a deusa do amor
O que fizeram dela?
O que fazem os homens de toda terra.
A guerra que mata todos os seus filhos. Todos.
Por fim a deusa foi útil para a matéria
Profanada.
Violada.
Escondida das mulheres a revelação
Escondida das mulheres a revelação
Mais secreta.
Que se podia dar o amor como oferenda
Devotadamente beijar os pés.
Como fazem os cristãos nos pés da virgem.
E as sacerdotisas
Que derramam oliva
Sobre um broto de açucena.
Toda uma vida para entender seu ritmo intuitivo.
Toda uma travessia para sentir
O vínculo com ela possível.
Portanto rainha foi e serás sempre por toda
A eternidade.
Mesmo com o coração manchado
De desilusões mortais.
Hei de fazer mais versos ao longo do tempo.
Até que minha pele se abata sob o sol.
E eu envelheça cheia de coragem.
Um dia parir.
De mim veio flor
Calorzinho e cheirinho de bebe
Pela casa e por todo o jardim
Esse calor reuniu todos os meus pedaços.
A ciência secreta revelada para quem deu à luz.
Uma felicidade sem palavras.
Nasci para fazer um poema sobre aquela que eu amava
No silencio das horas.
Madrugadas que anunciavam a minha salvação.
Madrugadas que anunciavam a minha salvação.
Como se o céu estivesse se abrindo sobre a minha
cabeça
Trazendo me jubilo e resignação.
Meu sol secreto
Sou toda sua.
Me toma.
Me toma.
Absorva
Pois já fui transformada.
Pois já fui transformada.
Em mim também a vejo e
Somente os desejos dos corações e as artes do
tantra.
No templo que pode ser minha própria casa.
Com a pessoa que pode ser uma amiga.
Num momento em que tudo for estrangeiro.
Virá a descoberta.
De um ritual faraônico do templo de Isis.
Dinastia da Sétima Cleópatra.
Para que possam entender vou contar como no livro
escrito por um escriba mulher, encontrado no sarcófago de uma deusa faraônica
que morreu ao ser picada por uma cobra.
Seu diário revela que a rainha do Egito construiu um
santuário no subterrâneo de Alexandria, a maior capital do mundo. O santuário
fazia oferendas à Deusa Isis por quem Cleópatra sentia enorme empatia.
Uma das sacerdotisas do tempo chamada Lilith foi
escolhida para dançar para a rainha no dia de seu vigésimo aniversário. A
rainha descendo as escadas do santuário ao se deparar com Lilith ordenou que a
beijasse os pés.
A sacerdotisa não conhecia o mundo acima de sua
cabeça. Não sabia que Alexandria existia e muito menos conhecia todo o poder de
sua rainha.
Havia festa do Nilo ao Mar vermelho.
Tantas flores espalhadas pelo deserto do Saara. Para
homenagear a rainha do Egito.
Mas o melhor presente ela recebeu de Lilith.
Lilith então disse: Se és rainha beijar seus pés é
uma ordem.
Como serva devo me inclinar para que possa banhar
seus pés nas águas cálida da nossa fonte.
E minhas vestes não estão apropriadas para um beijo.
Nem as suas estão deveras prontas para o ritual.
Mas de que ritual se trata?
Perguntou a rainha do Egito.
Não sabes. Então irei te iniciar.
Não sabes. Então irei te iniciar.
Esse ritual deve ser somente entre nós e nem
O fogo do templo trepidará.
Para não castrar a entrega original.
Do que falas?
Porque tamanha cerimônia para beijar meus pés.
Estás a me adular? Perguntou a rainha com ar de
indignação.
Não. Respondeu Lilith se despindo para a rainha.
Então dance! Ordenou a rainha.
Danço. Respondeu Lilith, movimentando o corpo com
sensualidade.
Venha!
Disse Lilith dominando a situação. Sente no seu
trono.
Assim fez a rainha. Agora espere, continuou lilith.
Foi Lilith até a fonte e encheu com água uma bacia
de cerâmica.
Em seguida perfumou a água com um óleo de lavanda.
Emergiu delicadamente os pés da rainha na bacia. O
lavando com doçura cantando um hino feliz.
Depois de lavar os pés ela os secou com uma toalha
de algodão tão alva como lagrimas de fadas.
A mesma frequência de Lilith que enfim beijou os pés
da rainha com devoção.
Acariciando com a língua toda a anatomia de seus
pés.
Nele sentiu a volúpia que as deusas invisíveis
encobriram dos homens na terra.
Até que pudesse adorar uma fêmea
Devolvendo ela todos os êxtases e gozos dela
roubado.
Devolver toda a sua liberdade de amar.
E cumprir seu legado.
A rainha até então nunca havia se entregado a
ninguém.
A sacerdotisa Lilith iniciou a rainha nesta prática
e se tornou desde então a única a beijar seus pés, até que a morte levou sua
rainha para sempre.
Após ser encarcerada por Otaviano a rainha Cleópatra
recebe de Lilith uma serpente
Que lhe dará um beijo fatal.
Devolvendo a estrela de onde veio
O último faraó do Egito.
Silvia D’
Sousa apresenta seu novo livro; ”o beijo da Rainha”. Relatos sobre sua
experiência com o amor, sonho e desilusão de uma crença numa certa felicidade
pessoal. Tomou a liberdade de traçar em palavras os contornos de um sentimento
vivido até seu desencanto.
O beijo da
rainha é uma junção de amor e ódio. Ainda que pueril, porém, belo na forma de
contar uma estória quase em versos.
”Sou responsável pela minha desilusão;
criamos um altar para o nosso objeto de adoração. Mas o amor é independente da nossa devoção. Ele brilha e escurece. Somos expectadores mortais de uma existência completamente livre das nossas decisões”.
criamos um altar para o nosso objeto de adoração. Mas o amor é independente da nossa devoção. Ele brilha e escurece. Somos expectadores mortais de uma existência completamente livre das nossas decisões”.
Eis meu
verso infinito à deusa do amor.
Silvia D’Sousa

Se o amor é plenitude íntima e independente do
indivíduo, vou contar como ele nasce. Sua expressão mais pura é um pensamento,
uma idealização de um mundo perfeito que não sabemos até então que não existe.
Protegidos em nossa capsula de ternura envolvidos no
calor materno nada é percebido ou sentido a fora dessa bolha de afeto consanguíneo.
Até que somos abraçados e beijados pela primeira vez. Um mundo novo e
florescente se abre. E isso acontecerá com cada embrião esperando florescer na
terra.
Dizem que a primeira expressão do mundo a fora
começa com o som, que ainda não fará o menor sentido para o bebê. Depois ele
experimenta o som distorcido de uma emoção negativa de alguém que vive a
experiência da dor e do sofrimento. Nesses dois extremos experimentamos a
atmosfera do amor e do ódio.
Ódio. Palavra que ninguém esquece milhões de vezes
faladas. Não é contemplada como a lua, o sol ou as estrelas.
Dentro desta palavra existe uma fórmula sombria que
esconde de nós a beleza de tudo. Até mesmo da dor e do sofrimento. Do
nascimento e da morte.
Já não me sinto tão jovem para correr em alta
velocidade nessa estrada aventureira. Para beber um drink e profanar as deusas
sagradas do amor. Ficar indiferente aos sentimentos alheios. Mergulhar no drama
de Shekspeare. Aliás, jamais encontrei algo superior à estória destes amantes
proibidos nascidos para amar e morrer num único beijo.
A literatura destaca o amor e o ódio. Porém com
lindos e implacáveis detalhes que irão adornar a realidade cotidiana de cada
ser contemplado com a vida.
Para falar de amor é preciso perder a vontade de
estar presa.
Ter asas que envolvem o corpo e a alma.
Buscar nas profundas sabedorias a essência desta
troca.
Onde o ser humano consegue enxergar outra imagem que
não é a dele.
Um espelho que mostra outro universo a ser explorado
de fora para dentro e de dentro para fora.
Como observadores que nos tornamos, logo percebemos
que existem o ambiente, o objeto, as pessoas, os pensamentos, as sensações e as
diferenças.
Existe a empatia, a antipatia e a adoração.
O desejo, a paixão a entrega e a devoção.
Tudo pode acontecer num único segundo, pode até
durar anos ou nunca acabar. O amor se move numa dinâmica não linear. Existe
como o concebemos, com a nossa cultura, com a nossa percepção, mas acima de
tudo com a nossa intimidade.
Ele se levanta das cinzas, desafia a morte, faz
juras a Deus e ao Diabo.
Busca um par. Um cúmplice. Um interlocutor.
Embora algumas vezes ele também seja apenas
platônico; sabe por sua própria natureza que ninguém é uma ilha.
Mas o amor parecerá leve depois de uma longa
caminhada. Até que se torne a expressão mais pura da beleza.
Certo dia estava tudo em paz.
O mundo era denso, sonoro e divertido, portanto em
ordem.
Estranho, popular.
Inseguro, dependente.
Eu estava na ponte que liga o desejo ao paraíso de
todas as volúpias.
Comprei um maço de cigarros, fumei a carteira
inteira para tomar uma decisão que mudaria todo o meu destino, traçado pelos
deuses modernos, mas isso foi antes dos dispositivos móveis e dos aplicativos
que conhecemos.
A decisão foi ligar para aquela que eu achava a
menina mais bonita do bairro.
Até os meus 15 anos eu não sabia que as pessoas
cuspiam nas meninas que gostavam de meninas.
Eu sabia que era um assunto polêmico.
Eu sabia que o movimento feminista era alvo do júri
popular como partido de lésbicas. Mulheres não podiam manifestar suas ideias
ainda. Isso porque já era década de 90. Não existia mais aquele blazer Coco Channel
tão sexy nas mulheres. A música mais tocada era aquela que dizia assim: É preciso
amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar para pensar
na verdade não há.
Então eu peguei o telefone e liguei. E passamos
horas conversando.
Daí ela foi me encontrar no meu apartamento que
ficava apenas a 1km de distância do dela. Quando o interfone tocou, ela disse:
Trouxe uma pizza, vamos assistir Lua de Fel?
Não deu outra.
Uma dose de conhaque com limão e gelo.
Duas doses de balantimes com limão e gelo.
E depois. O primeiro beijo.
Fogos de artifícios eram assistidos em meus olhos.
O amor era a coisa mais incrível.
O amor me levou ao êxtase por dias e noites.
Não pregava os olhos.
Estava em estado de profunda contemplação.
Sob o efeito
colateral de um beijo, desejei a caricias dos desejos. A loucura momentânea. A
passividade dos amantes que se entregam e se amam como se o dia nunca fosse
acabar.
Chega um dia que acaba.
Acabou de um jeito triste.
Ela foi morar no Japão. E eu fiquei vários aniversários
na mesma cidade até perceber que o amor se tornou uma fotografia na minha
carteira e uma poesia no meu diário.
Fora a primeira em que eu derramei uma lágrima de amor.
Enquanto crescia, doía.
Enquanto dormia, esquecia.
Enquanto amadurecia, fingia.
Enquanto ela casava e tinha filhos. Enquanto a lua
cheia vinha e voltava e regulava as marés, as horas passavam mais depressa. As
vontades mudavam. As roupas apertavam.
Mudei de cidade. Passei a amar os fins de tarde sem
recordações de primeiro beijo; mas tinha saudade de amar de novo. De viver de
novo para o que fomos feitos.
Dessas canções que o rock perpetua nas nossas
cabeças, tirei uma vontade de experimentar o calor de um homem. O cheiro dele
me dava calafrios. No começo eu não queria querer. Mas ele era muito charmoso e sabia contar
lindas estórias.
Quando tivemos nossa primeira noite de sexo. Percebi
que havia mudado muito.
Pensava que estava tendo uma relação séria.
Mas o que ele queria era apenas sexo.
Corri para o meu quarto e chorei.
Era paixão, tortura, prazer, ternura e desprezo,
enfim, as mazelas do amor. A periferia dos sentimentos mais chinfrins. Aquela
de ir com todas para cama. Os bacanais sôfregos e vulgares, onde a mulher uiva
e o homem urra.
As bijuterias amorosas. Versos de boteco.
Ácido na boca, tudo desconexo.
Ácido na boca, tudo desconexo.
Certo dia.
Acordei com uma pessoa que eu não queria.
As paredes de concreto e o cheiro do seu perfume me
esmagaram num inferno de abominações.
É que o amor não gosta de ser confundido.
E eu não conhecia a limpidez do seu altar.
Eu via tudo em 3D como a maioria via.
Sem a menor noção do infinito. E o que era mais
frágil, me importando muito com a aparência.
Era a juventude nosso maior troféu.
A loucura das tentações! Tais luxúrias irresistíveis
e totalmente ausente de glória.
Gozamos. E continuamos insatisfeitos.
Quando mais quer escapar, mas se aprisiona.
Conquista-se, mas nunca é o bastante.
Eis a benção e a maldição se relacionando.
Uma coisa que nós nem podemos refletir.
Imprevisíveis tempestades.
Emoções cheias de delírios tolos.
Um amor sem mistério.
Muito claro.
Muito comum.
Sim! Mas ainda podemos chamar de amor.
Somente após meus 25 anos; arquitetei minha vida
baseada na forma do amor ideal.
Desses que não se quebram. Desses tão firmes que não
se partem.
Era união e conexão.
Casamento cósmico ou algo assim. Pessoas que se
queriam até o fim.
Dentre tudo isso, veio o vício.
Desses que separam amantes liberais.
Desses que cortam os liames da paz.
Desses que querem se matar.
Tão egoístas viagens. Sobre uma liberdade sagaz.
Detonando nossas cabeças.
Tão infernais vontades soltando os nossos freios.
Tormentos temperamentais. Um tipo de lisonja ao
drama das paixões humanas que viu um dia uma coisa linda que brilhava e que num
segundo se apagou para dá vazão à desilusão.
E então ficou vazio o coração, adornado de espinhos.
Podia ser uma metáfora mais fácil. Bastava
selecionar e dar o play quando quisessem assistir de novo.
Viver esse
amor duvidoso. Esse amor desgastado.
Sair pelas portas do fundo em busca de solidão
Foi muita decepção. Compartilhar cada dia por dez
anos. Em estado de embriagues.
Poucas vezes percebi que tudo o que eu sonhei havia
se realizado. Não existiam mais novos planos. Não existia mais investidas e nem
seduções.
Os detalhes sobre nossa jornada não passavam de dias
após outro sem ambições.
O amor era uma coisa de irmãos.
De amigos que divergem de opiniões. Não se combinam.
Não se acertam. Não se elogiam. Não se enfeitam. Não brindam.
Apenas dançam na sala.
O amor fica
em silencio.
Escutam, não opinam.
Desacreditam, mas não desabafam.
Até que ele se vai como um trem partindo.
Uma estação nova surge sem nenhum desejo ou sonho.
Sem romantismo. Alguns avisos de perigo.
Alguns desvios de caminho.
Coisas de uma natureza dominante que o amor esconde.
Presente para quem sente. Ausente para quem não
conhece.
Os artifícios de uma liberdade sincera.
Esta de não ser de ninguém e não ter hora para
chegar em casa.
O amor ideal não existe.
Tantas voltas e sempre se chegará sempre no mesmo
lugar.
É que o amor a dois tem preço.
São empatias temporárias.
Aventura de cama e de uma mesa de jantar, todas as
noites no mesmo horário.
A novela real para cada ser que se depara com um
amor medido.
Controlado. Um amor que não se julga eterno.
Eterno é tempo demais para os mortais.
Mas mesmo os deuses erraram por amar
Os anjos caíram por amar.
Os mortais sabem que a vida acaba.
Que o amor acaba.
Que a eternidade é uma fantástica e importante
esperança para um mortal.
Sonhos confusos me fizeram duvidar do amor.
Sucubus libidinosos e entregas muito passionais me
fizeram duvidar do amor.
Ao ouvir o chamado da lua, cujos feitiços fêmeos
espalharam-se pelos ares odores de desejo e coisas impossíveis, para dois seres
da mesma esfera.
Ali estava sob o encanto da rainha.
No altar de suas crenças: a família, o trabalho, o
status e a solidão.
Na sua alma, uma chama. Seu próprio fogo seduzindo
quem a ela preso estava.
Seus caprichos charmosos me lançaram abraços e
relances de ternura.
Criei a beleza dela enfeitando a minha vida de doçura.
Com palavras e canções.
Com idas e vindas, natais, páscoas, dia de ações de
graça...
Ela era uma estrela vermelha prometida.
Uma dançarina a céu aberto rodopiando com sua saia.
Tinha tudo para dar certo. Eu sabia.
Ela talvez tenha duvidado.
Ela talvez tenha duvidado.
Mas logo se atirou em meus braços.
Uma joia eu possuía,
beijos de rainha ao nascer do dia.
beijos de rainha ao nascer do dia.
O tempo parou para mim.
Era o eterno que eu perseguia.
Era o eterno que eu perseguia.
Um amor desses não podia ter fim. Não podia!
Todo começo do mundo que não permitia
Contido no beijo daquela rainha.
Todo o começo do mundo que eu não conhecia.
Apenas no beijo da rainha.
O tempo não passava como se passa o dia e se ver o
final da noite
Não se acorda assim de um sonho.
E os adereços de uma cena que se repete
Nunca viram trapos. Nunca ficam gastos.
Nossa entrega foi extrema.
Mas tão poucas, como amores de verão.
Eu não conhecia uma deusa até o dia que beijei seus
pés.
Minha estirpe é da mais tímida poetisa.
Mas não ao eleger a dona do meu coração.
Gostava de saber que era desejada.
Mas as deusas não são atiradas.
Mas as deusas não são atiradas.
Elas se entregam placidamente e especialmente em momentos
onde a loucura e a lucidez se tocam.
Seus invernos são cheios de abraços
Suas mãos são quentes.
Revivo.
Sua boca era quente. Sua língua era quente.
Seus pés eram sensualmente quentes.
Mas porque rainha?
Porque era a única e a primeira para sempre.
Porque as deusas corrompidas tinham inveja.
Do quão sagrado era nossa entrega.
Não sabiam que os astros amavam nos ver felizes.
Que nossos sonhos se pareciam
Que as nossas diferenças não contavam
Uma pessoa; um universo, e um grande talento para o amor
surreal.
Talvez o mais sincero voto de submissão.
Tomei seus pés.
Conheci seus contornos de olhos fechados.
Conheci seus contornos de olhos fechados.
Os sentindo em minha boca.
Deslizando com a minha língua.
Enxergando e decorando a direção.
Deslizando com a minha língua.
Enxergando e decorando a direção.
De suas batidas mais fortes.
Com seu ofegante querer ardendo no meu ventre.
Um gozo.
Mais que isso.
Uma libertação.
Uma libertação.
Ali o amor prometeu ser fiel.
ser paciente e bondoso.
ser paciente e bondoso.
Ser puro,
Mas sobre tudo sincero.
Mas sobre tudo sincero.
Ali fizemos confissões.
Laços.
Laços.
Acordos.
declarações.
declarações.
Ali sempre que eu voltava estava limpa para o templo.
Não podia ser cama.
Tinha que ser um altar.
Não podia ser simples.
Tinha que ser um altar.
Não podia ser simples.
Tinha que ser uma ópera.
Não podia ser um drama infeliz. Não teria que ser
uma trágica união.
O amor se encobria de delírios que abafavam a voz da
sanidade.
O amor era isso. Contudo era pleno. Inteiro. Único.
Era meu.
Eu possuir aquele anjo vadio e sedutor. O amor
febril.
O que pode se atirar e nunca se arrepender pela
queda.
Majestoso é o momento em que uma mulher reúne em si
todas as deusas. De uma só vez. Sem pestanejar.
Foi assim que nasceu o dia. Da sua própria escuridão.
O amor que eu sentia, nascia de mim e para mim
retornava.
Da rainha que elegi, recebi beijos e açoites.
Da rainha que elegi, recebi beijos e açoites.
Ainda assim, permanecia.
Quando ela brilhava para mim, ninguém mais via.
Porque seu corpo estava em minhas mãos e nas minhas
poesias.
Esse beijo que poucos conheciam.
Não é mortal como de uma serpente.
Não. Não mata facilmente.
Ele encanta e envenena lentamente.
Tornei a amar, a ser feliz, a sonhar, a desejar.
Construindo cada dia um imenso castelo para morar.
Chegou a ser tão grandioso que se tornou impossível.
Viver tal querer tão intenso num período tão crítico.
O estágio da madureza e das renúncias que precisam
fazer as pessoas que crescem.
Uma coisa que dificilmente se repete.
E que não se decide no começo.
O amor agora cria suas próprias regras
Ele não pode ficar.
Ele não pode durar.
Ele tem que acabar.
Já não e rico e nem e pobre.
Ele tem que acabar.
Já não e rico e nem e pobre.
Indiferente a tudo.
quase morto.
quase morto.
Pede pra ir se embora na pior hora.
A hora de mudar.
A hora de mudar.
A hora de dizer adeus.
Quando mais forte ele se encontra. Humanizado e
fixo.
Pior é sua dissolução.
É a beleza de tudo apodrecendo.
Um universo fantástico se decompondo.
Um universo fantástico se decompondo.
Enquanto você luta pela sua vida.
morrendo todo dia mais um pouco.
morrendo todo dia mais um pouco.
Você pede para ficar.
Mas ele não te escuta.
Ele implora pela a separação.
Ela é a consequência dos que se entregaram.
Rainha foi desde o momento que eu desejei.
Querer como se quer algo para todo sempre.
Querer como se quer algo para todo sempre.
Todo dia florir e cair.
Como tudo pode mudar?
Quando tudo perde seu efeito?
Como tudo pode descabidamente se inflamar, explodir deixando pedaços por todo lado?
Como tudo pode descabidamente se inflamar, explodir deixando pedaços por todo lado?
Visivelmente destroçado.
Totalmente detonado.
Aquele amor encantado.
Este amor não é literatura.
Embora se exponha em versos.
Em linhas que se separam.
E depois se encontram
Numa nova harmonia
Assim eu queria.
O que nunca o foi.
Qual o verdadeiro nome da deusa expulsa do céu?
Lilith a rainha da escuridão.
Aquela que disse não.
Aquela que se tornou um demônio.
Por ser rebelar.
Por ser rebelar.
Aqui estou, amordaçada por amar.
Aqui estou sucumbindo só em tentar me libertar.
Do julgo desse amor traidor que injetou o ódio
Nas minhas veias.
Ódio.
O amor escurecido e duro.
Ódio o lado manchado de um amor que foi limpo.
Ódio o lado manchado de um amor que foi limpo.
Ódio e vingança de dois corações vivos.
Ódio.
Nos corações partidos.
Seu beijo adoçou minha poesia.
Seu beijo tirou a minha vida.
Aquele amor era tudo o que eu tinha.
O céu existe para os humanos.
O inferno existe para os poetas.
Os mortais vivem linearmente, andando na seta.
Os imortais dão piruetas no espaço.
O sexo existe para os mortais
Para os
imortais existe o Tantra.
Não era minha intenção escrever sobre a mulher.
Foi um rio que se cruzou para descarregar a sua
forma
Num foco de milhões de lágrimas.
Onde milhões de anos gritou Lilith.
Na escuridão de um mundo separado dela.
Primeiro era casta, depois virou puta.
Precisava ser mil vezes sacra para ser mil vezes
corrompida.
Seu esplendor valia todos os diamantes da terra.
De suas entranhas saíram todas as joias mais caras
do mundo.
Para a deusa foi construído um templo.
Soterrado no vale do Indo
A terra de Shiva
O deus andrógino que dançava.
Isis, Estarte, Diana, Hecate, Demeter, kali, Inana
Tantos nomes para uma única deusa
Qual delas poderá definir exatamente
O genuíno esplendor desta entidade
Que deu luz aos museus
E que dela também
Nasceu o
caos.
Kali corta e destrói.
Não quer ver nascer.
Para não matar.
Para não matar.
Mas a final.
Todos padecem.
Isis funda os idiomas. A música e a poesia.
A ciência secreta dos poderes sobrenaturais.
A ciência secreta dos poderes sobrenaturais.
A primeira bruxa.
A deusa mais famosa do Egito.
A deusa mais famosa do Egito.
A magia e o mistério são coisas
Muito atraentes.
Para as almas polidas.
Hecate possui uma caravana de loucos errantes
Nas terras de ninguém
Compõe a liberdade e aventura
Os primeiros sonhos humanos.
Todas as outras são facetas de uma única.
Disseram as anciãs do santuário dos santuários.
La onde eu fiz o meu voto
Pedindo o sentimento de volta.
O céu foi feito para os puros.
O inferno foi feito para os desacreditados.
Mas a deusa do amor
O que fizeram dela?
O que fazem os homens de toda terra.
A guerra que mata todos os seus filhos. Todos.
Por fim a deusa foi útil para a matéria
Profanada.
Violada.
Escondida das mulheres a revelação
Escondida das mulheres a revelação
Mais secreta.
Que se podia dar o amor como oferenda
Devotadamente beijar os pés.
Como fazem os cristãos nos pés da virgem.
E as sacerdotisas
Que derramam oliva
Sobre um broto de açucena.
Toda uma vida para entender seu ritmo intuitivo.
Toda uma travessia para sentir
O vínculo com ela possível.
Portanto rainha foi e serás sempre por toda
A eternidade.
Mesmo com o coração manchado
De desilusões mortais.
Hei de fazer mais versos ao longo do tempo.
Até que minha pele se abata sob o sol.
E eu envelheça cheia de coragem.
Um dia parir.
De mim veio flor
Calorzinho e cheirinho de bebe
Pela casa e por todo o jardim
Esse calor reuniu todos os meus pedaços.
A ciência secreta revelada para quem deu à luz.
Uma felicidade sem palavras.
Nasci para fazer um poema sobre aquela que eu amava
No silencio das horas.
Madrugadas que anunciavam a minha salvação.
Madrugadas que anunciavam a minha salvação.
Como se o céu estivesse se abrindo sobre a minha
cabeça
Trazendo me jubilo e resignação.
Meu sol secreto
Sou toda sua.
Me toma.
Me toma.
Absorva
Pois já fui transformada.
Pois já fui transformada.
Em mim também a vejo e
Somente os desejos dos corações e as artes do
tantra.
No templo que pode ser minha própria casa.
Com a pessoa que pode ser uma amiga.
Num momento em que tudo for estrangeiro.
Virá a descoberta.
De um ritual faraônico do templo de Isis.
Dinastia da Sétima Cleópatra.
Para que possam entender vou contar como no livro
escrito por um escriba mulher, encontrado no sarcófago de uma deusa faraônica
que morreu ao ser picada por uma cobra.
Seu diário revela que a rainha do Egito construiu um
santuário no subterrâneo de Alexandria, a maior capital do mundo. O santuário
fazia oferendas à Deusa Isis por quem Cleópatra sentia enorme empatia.
Uma das sacerdotisas do tempo chamada Lilith foi
escolhida para dançar para a rainha no dia de seu vigésimo aniversário. A
rainha descendo as escadas do santuário ao se deparar com Lilith ordenou que a
beijasse os pés.
A sacerdotisa não conhecia o mundo acima de sua
cabeça. Não sabia que Alexandria existia e muito menos conhecia todo o poder de
sua rainha.
Havia festa do Nilo ao Mar vermelho.
Tantas flores espalhadas pelo deserto do Saara. Para
homenagear a rainha do Egito.
Mas o melhor presente ela recebeu de Lilith.
Lilith então disse: Se és rainha beijar seus pés é
uma ordem.
Como serva devo me inclinar para que possa banhar
seus pés nas águas cálida da nossa fonte.
E minhas vestes não estão apropriadas para um beijo.
Nem as suas estão deveras prontas para o ritual.
Mas de que ritual se trata?
Perguntou a rainha do Egito.
Não sabes. Então irei te iniciar.
Não sabes. Então irei te iniciar.
Esse ritual deve ser somente entre nós e nem
O fogo do templo trepidará.
Para não castrar a entrega original.
Do que falas?
Porque tamanha cerimônia para beijar meus pés.
Estás a me adular? Perguntou a rainha com ar de
indignação.
Não. Respondeu Lilith se despindo para a rainha.
Então dance! Ordenou a rainha.
Danço. Respondeu Lilith, movimentando o corpo com
sensualidade.
Venha!
Disse Lilith dominando a situação. Sente no seu
trono.
Assim fez a rainha. Agora espere, continuou lilith.
Foi Lilith até a fonte e encheu com água uma bacia
de cerâmica.
Em seguida perfumou a água com um óleo de lavanda.
Emergiu delicadamente os pés da rainha na bacia. O
lavando com doçura cantando um hino feliz.
Depois de lavar os pés ela os secou com uma toalha
de algodão tão alva como lagrimas de fadas.
A mesma frequência de Lilith que enfim beijou os pés
da rainha com devoção.
Acariciando com a língua toda a anatomia de seus
pés.
Nele sentiu a volúpia que as deusas invisíveis
encobriram dos homens na terra.
Até que pudesse adorar uma fêmea
Devolvendo ela todos os êxtases e gozos dela
roubado.
Devolver toda a sua liberdade de amar.
E cumprir seu legado.
A rainha até então nunca havia se entregado a
ninguém.
A sacerdotisa Lilith iniciou a rainha nesta prática
e se tornou desde então a única a beijar seus pés, até que a morte levou sua
rainha para sempre.
Após ser encarcerada por Otaviano a rainha Cleópatra
recebe de Lilith uma serpente
Que lhe dará um beijo fatal.
Devolvendo a estrela de onde veio
O último faraó do Egito.
