sexta-feira, 20 de julho de 2018

Silvia de Sousa crianção "o beijo da rainha"



Silvia D’ Sousa apresenta seu novo livro; ”o beijo da Rainha”. Relatos sobre sua experiência com o amor, sonho e desilusão de uma crença numa certa felicidade pessoal. Tomou a liberdade de traçar em palavras os contornos de um sentimento vivido até seu desencanto.
O beijo da rainha é uma junção de amor e ódio. Ainda que pueril, porém, belo na forma de contar uma estória quase em versos.
”Sou responsável pela minha desilusão;
criamos um altar para o nosso objeto de adoração. Mas o amor é independente da nossa devoção. Ele brilha e escurece. Somos expectadores mortais de uma existência completamente livre das nossas decisões”.

Eis meu verso infinito à deusa do amor.
                                                                                                       Silvia D’Sousa

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Se o amor é plenitude íntima e independente do indivíduo, vou contar como ele nasce. Sua expressão mais pura é um pensamento, uma idealização de um mundo perfeito que não sabemos até então que não existe.
Protegidos em nossa capsula de ternura envolvidos no calor materno nada é percebido ou sentido a fora dessa bolha de afeto consanguíneo. Até que somos abraçados e beijados pela primeira vez. Um mundo novo e florescente se abre. E isso acontecerá com cada embrião esperando florescer na terra.
Dizem que a primeira expressão do mundo a fora começa com o som, que ainda não fará o menor sentido para o bebê. Depois ele experimenta o som distorcido de uma emoção negativa de alguém que vive a experiência da dor e do sofrimento. Nesses dois extremos experimentamos a atmosfera do amor e do ódio.
Ódio. Palavra que ninguém esquece milhões de vezes faladas. Não é contemplada como a lua, o sol ou as estrelas.
Dentro desta palavra existe uma fórmula sombria que esconde de nós a beleza de tudo. Até mesmo da dor e do sofrimento. Do nascimento e da morte.
Já não me sinto tão jovem para correr em alta velocidade nessa estrada aventureira. Para beber um drink e profanar as deusas sagradas do amor. Ficar indiferente aos sentimentos alheios. Mergulhar no drama de Shakespeare. Aliás, jamais encontrei algo superior à estória destes amantes proibidos nascidos para amar e morrer num único beijo.
A literatura destaca o amor e o ódio. Porém com lindos e implacáveis detalhes que irão adornar a realidade cotidiana de cada ser contemplado com a vida.
Para falar de amor é preciso perder a vontade de estar presa.
Ter asas que envolvem o corpo e a alma.
Buscar nas profundas sabedorias a essência desta troca.
Onde o ser humano consegue enxergar outra imagem que não é a dele.
Um espelho que mostra outro universo a ser explorado de fora para dentro e de dentro para fora.
Como observadores que nos tornamos, logo percebemos que existem o ambiente, o objeto, as pessoas, os pensamentos, as sensações e as diferenças.
Existe a empatia, a antipatia e a adoração.
O desejo, a paixão a entrega e a devoção.
Tudo pode acontecer num único segundo, pode até durar anos ou nunca acabar. O amor se move numa dinâmica não linear. Existe como o concebemos, com a nossa cultura, com a nossa percepção, mas acima de tudo com a nossa intimidade.
Ele se levanta das cinzas, desafia a morte, faz juras a Deus e ao Diabo.
Busca um par. Um cúmplice. Um interlocutor.
Embora algumas vezes ele também seja apenas platônico; sabe por sua própria natureza que ninguém é uma ilha.
Mas o amor parecerá leve depois de uma longa caminhada. Até que se torne a expressão mais pura da beleza.
Certo dia estava tudo em paz.
O mundo era denso, sonoro e divertido, portanto em ordem.
Estranho, popular.
Inseguro, dependente.
Eu estava na ponte que liga o desejo ao paraíso de todas as volúpias.
Comprei um maço de cigarros, fumei a carteira inteira para tomar uma decisão que mudaria todo o meu destino, traçado pelos deuses modernos, mas isso foi antes dos dispositivos móveis e dos aplicativos que conhecemos.
A decisão foi ligar para aquela que eu achava a menina mais bonita do bairro.
Até os meus 15 anos eu não sabia que as pessoas cuspiam nas meninas que gostavam de meninas.
Eu sabia que era um assunto polêmico.
Eu sabia que o movimento feminista era alvo do júri popular como partido de lésbicas. Mulheres não podiam manifestar suas ideias ainda. Isso porque já era década de 90. Não existia mais aquele blazer Coco Channel tão sexy nas mulheres. A música mais tocada era aquela que dizia assim: É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar para pensar na verdade não há.
Então eu peguei o telefone e liguei. E passamos horas conversando.
Daí ela foi me encontrar no meu apartamento que ficava apenas a 1km de distância do dela. Quando o interfone tocou, ela disse: Trouxe uma pizza, vamos assistir Lua de Fel?
Não deu outra.
Uma dose de conhaque com limão e gelo.
Duas doses de balantimes com limão e gelo.
E depois. O primeiro beijo.
Fogos de artifícios eram assistidos em meus olhos.
O amor era a coisa mais incrível.
O amor me levou ao êxtase por dias e noites.
Não pregava os olhos.
Estava em estado de profunda contemplação.
 Sob o efeito colateral de um beijo, desejei a caricias dos desejos. A loucura momentânea. A passividade dos amantes que se entregam e se amam como se o dia nunca fosse acabar.
Chega um dia que acaba.
Acabou de um jeito triste.
Ela foi morar no Japão. E eu fiquei vários aniversários na mesma cidade até perceber que o amor se tornou uma fotografia na minha carteira e uma poesia no meu diário.

Fora a primeira em que eu derramei uma lágrima de amor.
Enquanto crescia, doía.
Enquanto dormia, esquecia.
Enquanto amadurecia, fingia.
Enquanto ela casava e tinha filhos. Enquanto a lua cheia vinha e voltava e regulava as marés, as horas passavam mais depressa. As vontades mudavam. As roupas apertavam.
Mudei de cidade. Passei a amar os fins de tarde sem recordações de primeiro beijo; mas tinha saudade de amar de novo. De viver de novo para o que fomos feitos.

Dessas canções que o rock perpetua nas nossas cabeças, tirei uma vontade de experimentar o calor de um homem. O cheiro dele me dava calafrios. No começo eu não queria querer.  Mas ele era muito charmoso e sabia contar lindas estórias.
Quando tivemos nossa primeira noite de sexo. Percebi que havia mudado muito.
Pensava que estava tendo uma relação séria.
Mas o que ele queria era apenas sexo.
Corri para o meu quarto e chorei.
Era paixão, tortura, prazer, ternura e desprezo, enfim, as mazelas do amor. A periferia dos sentimentos mais chinfrins. Aquela de ir com todas para cama. Os bacanais sôfregos e vulgares, onde a mulher uiva e o homem urra.
As bijuterias amorosas. Versos de boteco.
Ácido na boca, tudo desconexo.
Certo dia.
Acordei com uma pessoa que eu não queria.
As paredes de concreto e o cheiro do seu perfume me esmagaram num inferno de abominações.
É que o amor não gosta de ser confundido.
E eu não conhecia a limpidez do seu altar.
Eu via tudo em 3D como a maioria via.
Sem a menor noção do infinito. E o que era mais frágil, me importando muito com a aparência.
Era a juventude nosso maior troféu.
A loucura das tentações! Tais luxúrias irresistíveis e totalmente ausente de glória.
Gozamos. E continuamos insatisfeitos.
Quando mais quer escapar, mas se aprisiona.
Conquista-se, mas nunca é o bastante.
Eis a benção e a maldição se relacionando.
Uma coisa que nós nem podemos refletir.
Imprevisíveis tempestades.
Emoções cheias de delírios tolos.
Um amor sem mistério.
Muito claro.
 Muito comum.
Sim! Mas ainda podemos chamar de amor.
Somente após meus 25 anos; arquitetei minha vida baseada na forma do amor ideal.
Desses que não se quebram. Desses tão firmes que não se partem.
Era união e conexão.
Casamento cósmico ou algo assim. Pessoas que se queriam até o fim.
Dentre tudo isso, veio o vício.
Desses que separam amantes liberais.
Desses que cortam os liames da paz.
Desses que querem se matar.
Tão egoístas viagens. Sobre uma liberdade sagaz.
Detonando nossas cabeças.

Tão infernais vontades soltando os nossos freios.
Tormentos temperamentais. Um tipo de lisonja ao drama das paixões humanas que viu um dia uma coisa linda que brilhava e que num segundo se apagou para dá vazão à desilusão.
E então ficou vazio o coração, adornado de espinhos.
Podia ser uma metáfora mais fácil. Bastava selecionar e dar o play quando quisessem assistir de novo.
 Viver esse amor duvidoso. Esse amor desgastado.
Sair pelas portas do fundo em busca de solidão
Foi muita decepção. Compartilhar cada dia por dez anos. Em estado de embriagues.

Poucas vezes percebi que tudo o que eu sonhei havia se realizado. Não existiam mais novos planos. Não existia mais investidas e nem seduções.
Os detalhes sobre nossa jornada não passavam de dias após outro sem ambições.
O amor era uma coisa de irmãos.
De amigos que divergem de opiniões. Não se combinam. Não se acertam. Não se elogiam. Não se enfeitam. Não brindam.
Apenas dançam na sala.
 O amor fica em silencio. 
Escutam, não opinam.
Desacreditam, mas não desabafam.
Até que ele se vai como um trem partindo.

Uma estação nova surge sem nenhum desejo ou sonho.
Sem romantismo. Alguns avisos de perigo.
Alguns desvios de caminho.
Coisas de uma natureza dominante que o amor esconde.
Presente para quem sente. Ausente para quem não conhece.
Os artifícios de uma liberdade sincera.
Esta de não ser de ninguém e não ter hora para chegar em casa.

O amor ideal não existe.
Tantas voltas e sempre se chegará sempre no mesmo lugar.
É que o amor a dois tem preço.
São empatias temporárias.
Aventura de cama e de uma mesa de jantar, todas as noites no mesmo horário.
A novela real para cada ser que se depara com um amor medido.
Controlado. Um amor que não se julga eterno.
Eterno é tempo demais para os mortais.
Mas mesmo os deuses erraram por amar
Os anjos caíram por amar.
Os mortais sabem que a vida acaba.
Que o amor acaba.
Que a eternidade é uma fantástica e importante esperança para um mortal.
Sonhos confusos me fizeram duvidar do amor.
Sucubus libidinosos e entregas muito passionais me fizeram duvidar do amor.
Ao ouvir o chamado da lua, cujos feitiços fêmeos espalharam-se pelos ares odores de desejo e coisas impossíveis, para dois seres da mesma esfera.
Ali estava sob o encanto da rainha.
No altar de suas crenças: a família, o trabalho, o status e a solidão.
Na sua alma, uma chama. Seu próprio fogo seduzindo quem a ela preso estava.
Seus caprichos charmosos me lançaram abraços e relances de ternura.
Criei a beleza dela enfeitando a minha vida de doçura.
Com palavras e canções.
Com idas e vindas, natais, páscoas, dia de ações de graça...
Ela era uma estrela vermelha prometida.
Uma dançarina a céu aberto rodopiando com sua saia.
Tinha tudo para dar certo. Eu sabia.
Ela talvez tenha duvidado.
Mas logo se atirou em meus braços.
Uma joia eu possuía,
beijos de rainha ao nascer do dia.
O tempo parou para mim.
Era o eterno que eu perseguia.
Um amor desses não podia ter fim. Não podia!
Todo começo do mundo que não permitia
Contido no beijo daquela rainha.

Todo o começo do mundo que eu não conhecia.
Apenas no beijo da rainha.

O tempo não passava como se passa o dia e se ver o final da noite
Não se acorda assim de um sonho.
E os adereços de uma cena que se repete
Nunca viram trapos. Nunca ficam gastos.
Nossa entrega foi extrema.
Mas tão poucas, como amores de verão.

Eu não conhecia uma deusa até o dia que beijei seus pés.
Minha estirpe é da mais tímida poetisa.
Mas não ao eleger a dona do meu coração.
Gostava de saber que era desejada.
Mas as deusas não são atiradas.
Elas se entregam placidamente e especialmente em momentos onde a loucura e a lucidez se tocam.
Seus invernos são cheios de abraços
Suas mãos são quentes.
Revivo.

Sua boca era quente. Sua língua era quente.
Seus pés eram sensualmente quentes.
Mas porque rainha?
Porque era a única e a primeira para sempre.
Porque as deusas corrompidas tinham inveja.
Do quão sagrado era nossa entrega.
Não sabiam que os astros amavam nos ver felizes.
Que nossos sonhos se pareciam
Que as nossas diferenças não contavam
Uma pessoa; um universo, e um grande talento para o amor surreal.
Talvez o mais sincero voto de submissão.

Tomei seus pés.
Conheci seus contornos de olhos fechados.
Os sentindo em minha boca.
Deslizando com a minha língua.
Enxergando e decorando a direção.
De suas batidas mais fortes.
Com seu ofegante querer ardendo no meu ventre.
Um gozo.
Mais que isso.
Uma libertação.

Ali o amor prometeu ser fiel.
ser paciente e bondoso.
Ser puro,
Mas sobre tudo sincero.

Ali fizemos confissões.
Laços.
Acordos.
declarações.
Ali sempre que eu voltava estava limpa para o templo.
Não podia ser cama.
Tinha que ser um altar.
Não podia ser simples.
Tinha que ser uma ópera.
Não podia ser um drama infeliz. Não teria que ser uma trágica união.
O amor se encobria de delírios que abafavam a voz da sanidade.
O amor era isso. Contudo era pleno. Inteiro. Único.
Era meu.
Eu possuir aquele anjo vadio e sedutor. O amor febril.
O que pode se atirar e nunca se arrepender pela queda.
Majestoso é o momento em que uma mulher reúne em si todas as deusas. De uma só vez. Sem pestanejar.
Foi assim que nasceu o dia. Da sua própria escuridão.
O amor que eu sentia, nascia de mim e para mim retornava.
Da rainha que elegi, recebi beijos e açoites.
Ainda assim, permanecia.
Quando ela brilhava para mim, ninguém mais via.
Porque seu corpo estava em minhas mãos e nas minhas poesias.
Esse beijo que poucos conheciam.
Não é mortal como de uma serpente.
Não. Não mata facilmente.
Ele encanta e envenena lentamente.

Tornei a amar, a ser feliz, a sonhar, a desejar.
Construindo cada dia um imenso castelo para morar.
Chegou a ser tão grandioso que se tornou impossível.
Viver tal querer tão intenso num período tão crítico.
O estágio da madureza e das renúncias que precisam fazer as pessoas que crescem.

Uma coisa que dificilmente se repete.
E que não se decide no começo.
O amor agora cria suas próprias regras
Ele não pode ficar.
Ele não pode durar.
Ele tem que acabar.
Já não e rico e nem e pobre.
Indiferente a tudo.
quase morto.
Pede pra ir se embora na pior hora.
A hora de mudar.
A hora de dizer adeus.
Quando mais forte ele se encontra. Humanizado e fixo.
Pior é sua dissolução.
É a beleza de tudo apodrecendo.
Um universo fantástico se decompondo.
Enquanto você  luta pela sua vida.
morrendo todo dia mais um pouco.
Você pede para ficar.
Mas ele não te escuta.
Ele implora pela a separação.
Ela é a consequência dos que se entregaram.

Rainha foi desde o momento que eu desejei.
Querer como se quer algo para todo sempre.
Todo dia florir e cair.

Como tudo pode mudar?
Quando tudo perde seu efeito?
Como tudo pode descabidamente se inflamar, explodir deixando pedaços por todo lado?


Visivelmente destroçado.
Totalmente detonado.
Aquele amor encantado.

Este amor não é literatura.
Embora se exponha em versos.
Em linhas que se separam.
E depois se encontram
Numa nova harmonia
Assim eu queria.

O que nunca o foi.

Qual o verdadeiro nome da deusa expulsa do céu?
Lilith a rainha da escuridão.
Aquela que disse não.
Aquela que se tornou um demônio.
Por ser rebelar.
Aqui estou, amordaçada por amar.
Aqui estou sucumbindo só em tentar me libertar.
Do julgo desse amor traidor que injetou o ódio
Nas minhas veias.

Ódio.
O amor escurecido e duro.
Ódio o lado manchado de um amor que foi limpo.
Ódio e vingança de dois corações vivos.
Ódio.
Nos corações partidos.
Seu beijo adoçou minha poesia.

Seu beijo tirou a minha vida.
Aquele amor era tudo o que eu tinha.

O céu existe para os humanos.
O inferno existe para os poetas.
Os mortais vivem linearmente, andando na seta.
Os imortais dão piruetas no espaço.

O sexo existe para os mortais
 Para os imortais existe o Tantra.
Não era minha intenção escrever sobre a mulher.
Foi um rio que se cruzou para descarregar a sua forma
Num foco de milhões de lágrimas.
Onde milhões de anos gritou Lilith.
Na escuridão de um mundo separado dela.

Primeiro era casta, depois virou puta.
Precisava ser mil vezes sacra para ser mil vezes corrompida.
Seu esplendor valia todos os diamantes da terra.
De suas entranhas saíram todas as joias mais caras do mundo.

Para a deusa foi construído um templo.
Soterrado no vale do Indo
A terra de Shiva
O deus andrógino que dançava.

Isis, Estarte, Diana, Hecate, Demeter, kali, Inana
Tantos nomes para uma única deusa
Qual delas poderá definir exatamente
O genuíno esplendor desta entidade
Que deu luz aos museus
E que dela também
 Nasceu o caos.
Kali corta e destrói.
Não quer ver nascer.
Para não matar.
Mas a final.
Todos padecem.
Isis funda os idiomas. A música e a poesia.
A ciência secreta dos poderes sobrenaturais.
A primeira bruxa.
A deusa mais famosa do Egito.
A magia e o mistério são coisas
Muito atraentes.
Para as almas polidas.
Hecate possui uma caravana de loucos errantes
Nas terras de ninguém
Compõe a liberdade e aventura
Os primeiros sonhos humanos.

Todas as outras são facetas de uma única.
Disseram as anciãs do santuário dos santuários.
La onde eu fiz o meu voto
Pedindo o sentimento de volta.

O céu foi feito para os puros.
O inferno foi feito para os desacreditados.
Mas a deusa do amor
O que fizeram dela?
O que fazem os homens de toda terra.
A guerra que mata todos os seus filhos. Todos.
Por fim a deusa foi útil para a matéria
Profanada.
Violada.
Escondida das mulheres a  revelação
Mais secreta.
Que se podia dar o amor como oferenda
Devotadamente beijar os pés.

Como fazem os cristãos nos pés da virgem.

E as sacerdotisas
Que derramam oliva
Sobre um broto de açucena.

Toda uma vida para entender seu ritmo intuitivo.
Toda uma travessia para sentir
O vínculo com ela possível.
Portanto rainha foi e serás sempre por toda
A eternidade.

Mesmo com o coração manchado
De desilusões mortais.
Hei de fazer mais versos ao longo do tempo.
Até que minha pele se abata sob o sol.
E eu envelheça cheia de coragem.

Um dia parir.
De mim veio flor
Calorzinho e cheirinho de bebe
Pela casa e por todo o jardim
Esse calor reuniu todos os meus pedaços.

A ciência secreta revelada para quem deu à luz.
Uma felicidade sem palavras.

Nasci para fazer um poema sobre aquela que eu amava
No silencio das horas.
Madrugadas que anunciavam a minha salvação.
Como se o céu estivesse se abrindo sobre a minha cabeça
Trazendo me jubilo e resignação.

Meu sol secreto
Sou toda sua.
Me toma.
 Absorva
Pois já fui transformada.
Em mim também a vejo e
Somente os desejos dos corações e as artes do tantra.
No templo que pode ser minha própria casa.
Com a pessoa que pode ser uma amiga.
Num momento em que tudo for estrangeiro.
Virá a descoberta.
De um ritual faraônico do templo de Isis.
Dinastia da Sétima Cleópatra.

Para que possam entender vou contar como no livro escrito por um escriba mulher, encontrado no sarcófago de uma deusa faraônica que morreu ao ser picada por uma cobra.
Seu diário revela que a rainha do Egito construiu um santuário no subterrâneo de Alexandria, a maior capital do mundo. O santuário fazia oferendas à Deusa Isis por quem Cleópatra sentia enorme empatia.
Uma das sacerdotisas do tempo chamada Lilith foi escolhida para dançar para a rainha no dia de seu vigésimo aniversário. A rainha descendo as escadas do santuário ao se deparar com Lilith ordenou que a beijasse os pés.
A sacerdotisa não conhecia o mundo acima de sua cabeça. Não sabia que Alexandria existia e muito menos conhecia todo o poder de sua rainha.
Havia festa do Nilo ao Mar vermelho.
Tantas flores espalhadas pelo deserto do Saara. Para homenagear a rainha do Egito.
Mas o melhor presente ela recebeu de Lilith.
Lilith então disse: Se és rainha beijar seus pés é uma ordem.
Como serva devo me inclinar para que possa banhar seus pés nas águas cálida da nossa fonte.
E minhas vestes não estão apropriadas para um beijo.
Nem as suas estão deveras prontas para o ritual.
Mas de que ritual se trata?
Perguntou a rainha do Egito.
Não sabes. Então irei te iniciar.
Esse ritual deve ser somente entre nós e nem
O fogo do templo trepidará.
Para não castrar a entrega original.
Do que falas?
Porque tamanha cerimônia para beijar meus pés.
Estás a me adular? Perguntou a rainha com ar de indignação.
Não. Respondeu Lilith se despindo para a rainha.
Então dance! Ordenou a rainha.
Danço. Respondeu Lilith, movimentando o corpo com sensualidade.
Venha!
Disse Lilith dominando a situação. Sente no seu trono.
Assim fez a rainha. Agora espere, continuou lilith.
Foi Lilith até a fonte e encheu com água uma bacia de cerâmica.
Em seguida perfumou a água com um óleo de lavanda.
Emergiu delicadamente os pés da rainha na bacia. O lavando com doçura cantando um hino feliz.
Depois de lavar os pés ela os secou com uma toalha de algodão tão alva como lagrimas de fadas.
Neste instante a rainha sentiu um ímpeto de liberdade.
A mesma frequência de Lilith que enfim beijou os pés da rainha com devoção.
Acariciando com a língua toda a anatomia de seus pés.
Nele sentiu a volúpia que as deusas invisíveis encobriram dos homens na terra.
Até que pudesse adorar uma fêmea
Devolvendo ela todos os êxtases e gozos dela roubado.
Devolver toda a sua liberdade de amar.
E cumprir seu legado.
A rainha até então nunca havia se entregado a ninguém.
A sacerdotisa Lilith iniciou a rainha nesta prática e se tornou desde então a única a beijar seus pés, até que a morte levou sua rainha para sempre.
Após ser encarcerada por Otaviano a rainha Cleópatra recebe de Lilith uma serpente
Que lhe dará um beijo fatal.
Devolvendo a estrela de onde veio
O último faraó do Egito.

Silvia D’ Sousa apresenta seu novo livro; ”o beijo da Rainha”. Relatos sobre sua experiência com o amor, sonho e desilusão de uma crença numa certa felicidade pessoal. Tomou a liberdade de traçar em palavras os contornos de um sentimento vivido até seu desencanto.
O beijo da rainha é uma junção de amor e ódio. Ainda que pueril, porém, belo na forma de contar uma estória quase em versos.
”Sou responsável pela minha desilusão;
criamos um altar para o nosso objeto de adoração. Mas o amor é independente da nossa devoção. Ele brilha e escurece. Somos expectadores mortais de uma existência completamente livre das nossas decisões”.

Eis meu verso infinito à deusa do amor.
                                                                                                       Silvia D’Sousa

img041.jpg


Se o amor é plenitude íntima e independente do indivíduo, vou contar como ele nasce. Sua expressão mais pura é um pensamento, uma idealização de um mundo perfeito que não sabemos até então que não existe.
Protegidos em nossa capsula de ternura envolvidos no calor materno nada é percebido ou sentido a fora dessa bolha de afeto consanguíneo. Até que somos abraçados e beijados pela primeira vez. Um mundo novo e florescente se abre. E isso acontecerá com cada embrião esperando florescer na terra.
Dizem que a primeira expressão do mundo a fora começa com o som, que ainda não fará o menor sentido para o bebê. Depois ele experimenta o som distorcido de uma emoção negativa de alguém que vive a experiência da dor e do sofrimento. Nesses dois extremos experimentamos a atmosfera do amor e do ódio.
Ódio. Palavra que ninguém esquece milhões de vezes faladas. Não é contemplada como a lua, o sol ou as estrelas.
Dentro desta palavra existe uma fórmula sombria que esconde de nós a beleza de tudo. Até mesmo da dor e do sofrimento. Do nascimento e da morte.
Já não me sinto tão jovem para correr em alta velocidade nessa estrada aventureira. Para beber um drink e profanar as deusas sagradas do amor. Ficar indiferente aos sentimentos alheios. Mergulhar no drama de Shekspeare. Aliás, jamais encontrei algo superior à estória destes amantes proibidos nascidos para amar e morrer num único beijo.
A literatura destaca o amor e o ódio. Porém com lindos e implacáveis detalhes que irão adornar a realidade cotidiana de cada ser contemplado com a vida.
Para falar de amor é preciso perder a vontade de estar presa.
Ter asas que envolvem o corpo e a alma.
Buscar nas profundas sabedorias a essência desta troca.
Onde o ser humano consegue enxergar outra imagem que não é a dele.
Um espelho que mostra outro universo a ser explorado de fora para dentro e de dentro para fora.
Como observadores que nos tornamos, logo percebemos que existem o ambiente, o objeto, as pessoas, os pensamentos, as sensações e as diferenças.
Existe a empatia, a antipatia e a adoração.
O desejo, a paixão a entrega e a devoção.
Tudo pode acontecer num único segundo, pode até durar anos ou nunca acabar. O amor se move numa dinâmica não linear. Existe como o concebemos, com a nossa cultura, com a nossa percepção, mas acima de tudo com a nossa intimidade.
Ele se levanta das cinzas, desafia a morte, faz juras a Deus e ao Diabo.
Busca um par. Um cúmplice. Um interlocutor.
Embora algumas vezes ele também seja apenas platônico; sabe por sua própria natureza que ninguém é uma ilha.
Mas o amor parecerá leve depois de uma longa caminhada. Até que se torne a expressão mais pura da beleza.
Certo dia estava tudo em paz.
O mundo era denso, sonoro e divertido, portanto em ordem.
Estranho, popular.
Inseguro, dependente.
Eu estava na ponte que liga o desejo ao paraíso de todas as volúpias.
Comprei um maço de cigarros, fumei a carteira inteira para tomar uma decisão que mudaria todo o meu destino, traçado pelos deuses modernos, mas isso foi antes dos dispositivos móveis e dos aplicativos que conhecemos.
A decisão foi ligar para aquela que eu achava a menina mais bonita do bairro.
Até os meus 15 anos eu não sabia que as pessoas cuspiam nas meninas que gostavam de meninas.
Eu sabia que era um assunto polêmico.
Eu sabia que o movimento feminista era alvo do júri popular como partido de lésbicas. Mulheres não podiam manifestar suas ideias ainda. Isso porque já era década de 90. Não existia mais aquele blazer Coco Channel tão sexy nas mulheres. A música mais tocada era aquela que dizia assim: É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar para pensar na verdade não há.
Então eu peguei o telefone e liguei. E passamos horas conversando.
Daí ela foi me encontrar no meu apartamento que ficava apenas a 1km de distância do dela. Quando o interfone tocou, ela disse: Trouxe uma pizza, vamos assistir Lua de Fel?
Não deu outra.
Uma dose de conhaque com limão e gelo.
Duas doses de balantimes com limão e gelo.
E depois. O primeiro beijo.
Fogos de artifícios eram assistidos em meus olhos.
O amor era a coisa mais incrível.
O amor me levou ao êxtase por dias e noites.
Não pregava os olhos.
Estava em estado de profunda contemplação.
 Sob o efeito colateral de um beijo, desejei a caricias dos desejos. A loucura momentânea. A passividade dos amantes que se entregam e se amam como se o dia nunca fosse acabar.
Chega um dia que acaba.
Acabou de um jeito triste.
Ela foi morar no Japão. E eu fiquei vários aniversários na mesma cidade até perceber que o amor se tornou uma fotografia na minha carteira e uma poesia no meu diário.

Fora a primeira em que eu derramei uma lágrima de amor.
Enquanto crescia, doía.
Enquanto dormia, esquecia.
Enquanto amadurecia, fingia.
Enquanto ela casava e tinha filhos. Enquanto a lua cheia vinha e voltava e regulava as marés, as horas passavam mais depressa. As vontades mudavam. As roupas apertavam.
Mudei de cidade. Passei a amar os fins de tarde sem recordações de primeiro beijo; mas tinha saudade de amar de novo. De viver de novo para o que fomos feitos.

Dessas canções que o rock perpetua nas nossas cabeças, tirei uma vontade de experimentar o calor de um homem. O cheiro dele me dava calafrios. No começo eu não queria querer.  Mas ele era muito charmoso e sabia contar lindas estórias.
Quando tivemos nossa primeira noite de sexo. Percebi que havia mudado muito.
Pensava que estava tendo uma relação séria.
Mas o que ele queria era apenas sexo.
Corri para o meu quarto e chorei.
Era paixão, tortura, prazer, ternura e desprezo, enfim, as mazelas do amor. A periferia dos sentimentos mais chinfrins. Aquela de ir com todas para cama. Os bacanais sôfregos e vulgares, onde a mulher uiva e o homem urra.
As bijuterias amorosas. Versos de boteco.
Ácido na boca, tudo desconexo.
Certo dia.
Acordei com uma pessoa que eu não queria.
As paredes de concreto e o cheiro do seu perfume me esmagaram num inferno de abominações.
É que o amor não gosta de ser confundido.
E eu não conhecia a limpidez do seu altar.
Eu via tudo em 3D como a maioria via.
Sem a menor noção do infinito. E o que era mais frágil, me importando muito com a aparência.
Era a juventude nosso maior troféu.
A loucura das tentações! Tais luxúrias irresistíveis e totalmente ausente de glória.
Gozamos. E continuamos insatisfeitos.
Quando mais quer escapar, mas se aprisiona.
Conquista-se, mas nunca é o bastante.
Eis a benção e a maldição se relacionando.
Uma coisa que nós nem podemos refletir.
Imprevisíveis tempestades.
Emoções cheias de delírios tolos.
Um amor sem mistério.
Muito claro.
 Muito comum.
Sim! Mas ainda podemos chamar de amor.
Somente após meus 25 anos; arquitetei minha vida baseada na forma do amor ideal.
Desses que não se quebram. Desses tão firmes que não se partem.
Era união e conexão.
Casamento cósmico ou algo assim. Pessoas que se queriam até o fim.
Dentre tudo isso, veio o vício.
Desses que separam amantes liberais.
Desses que cortam os liames da paz.
Desses que querem se matar.
Tão egoístas viagens. Sobre uma liberdade sagaz.
Detonando nossas cabeças.

Tão infernais vontades soltando os nossos freios.
Tormentos temperamentais. Um tipo de lisonja ao drama das paixões humanas que viu um dia uma coisa linda que brilhava e que num segundo se apagou para dá vazão à desilusão.
E então ficou vazio o coração, adornado de espinhos.
Podia ser uma metáfora mais fácil. Bastava selecionar e dar o play quando quisessem assistir de novo.
 Viver esse amor duvidoso. Esse amor desgastado.
Sair pelas portas do fundo em busca de solidão
Foi muita decepção. Compartilhar cada dia por dez anos. Em estado de embriagues.

Poucas vezes percebi que tudo o que eu sonhei havia se realizado. Não existiam mais novos planos. Não existia mais investidas e nem seduções.
Os detalhes sobre nossa jornada não passavam de dias após outro sem ambições.
O amor era uma coisa de irmãos.
De amigos que divergem de opiniões. Não se combinam. Não se acertam. Não se elogiam. Não se enfeitam. Não brindam.
Apenas dançam na sala.
 O amor fica em silencio. 
Escutam, não opinam.
Desacreditam, mas não desabafam.
Até que ele se vai como um trem partindo.

Uma estação nova surge sem nenhum desejo ou sonho.
Sem romantismo. Alguns avisos de perigo.
Alguns desvios de caminho.
Coisas de uma natureza dominante que o amor esconde.
Presente para quem sente. Ausente para quem não conhece.
Os artifícios de uma liberdade sincera.
Esta de não ser de ninguém e não ter hora para chegar em casa.

O amor ideal não existe.
Tantas voltas e sempre se chegará sempre no mesmo lugar.
É que o amor a dois tem preço.
São empatias temporárias.
Aventura de cama e de uma mesa de jantar, todas as noites no mesmo horário.
A novela real para cada ser que se depara com um amor medido.
Controlado. Um amor que não se julga eterno.
Eterno é tempo demais para os mortais.
Mas mesmo os deuses erraram por amar
Os anjos caíram por amar.
Os mortais sabem que a vida acaba.
Que o amor acaba.
Que a eternidade é uma fantástica e importante esperança para um mortal.
Sonhos confusos me fizeram duvidar do amor.
Sucubus libidinosos e entregas muito passionais me fizeram duvidar do amor.
Ao ouvir o chamado da lua, cujos feitiços fêmeos espalharam-se pelos ares odores de desejo e coisas impossíveis, para dois seres da mesma esfera.
Ali estava sob o encanto da rainha.
No altar de suas crenças: a família, o trabalho, o status e a solidão.
Na sua alma, uma chama. Seu próprio fogo seduzindo quem a ela preso estava.
Seus caprichos charmosos me lançaram abraços e relances de ternura.
Criei a beleza dela enfeitando a minha vida de doçura.
Com palavras e canções.
Com idas e vindas, natais, páscoas, dia de ações de graça...
Ela era uma estrela vermelha prometida.
Uma dançarina a céu aberto rodopiando com sua saia.
Tinha tudo para dar certo. Eu sabia.
Ela talvez tenha duvidado.
Mas logo se atirou em meus braços.
Uma joia eu possuía,
beijos de rainha ao nascer do dia.
O tempo parou para mim.
Era o eterno que eu perseguia.
Um amor desses não podia ter fim. Não podia!
Todo começo do mundo que não permitia
Contido no beijo daquela rainha.

Todo o começo do mundo que eu não conhecia.
Apenas no beijo da rainha.

O tempo não passava como se passa o dia e se ver o final da noite
Não se acorda assim de um sonho.
E os adereços de uma cena que se repete
Nunca viram trapos. Nunca ficam gastos.
Nossa entrega foi extrema.
Mas tão poucas, como amores de verão.

Eu não conhecia uma deusa até o dia que beijei seus pés.
Minha estirpe é da mais tímida poetisa.
Mas não ao eleger a dona do meu coração.
Gostava de saber que era desejada.
Mas as deusas não são atiradas.
Elas se entregam placidamente e especialmente em momentos onde a loucura e a lucidez se tocam.
Seus invernos são cheios de abraços
Suas mãos são quentes.
Revivo.

Sua boca era quente. Sua língua era quente.
Seus pés eram sensualmente quentes.
Mas porque rainha?
Porque era a única e a primeira para sempre.
Porque as deusas corrompidas tinham inveja.
Do quão sagrado era nossa entrega.
Não sabiam que os astros amavam nos ver felizes.
Que nossos sonhos se pareciam
Que as nossas diferenças não contavam
Uma pessoa; um universo, e um grande talento para o amor surreal.
Talvez o mais sincero voto de submissão.

Tomei seus pés.
Conheci seus contornos de olhos fechados.
Os sentindo em minha boca.
Deslizando com a minha língua.
Enxergando e decorando a direção.
De suas batidas mais fortes.
Com seu ofegante querer ardendo no meu ventre.
Um gozo.
Mais que isso.
Uma libertação.

Ali o amor prometeu ser fiel.
ser paciente e bondoso.
Ser puro,
Mas sobre tudo sincero.

Ali fizemos confissões.
Laços.
Acordos.
declarações.
Ali sempre que eu voltava estava limpa para o templo.
Não podia ser cama.
Tinha que ser um altar.
Não podia ser simples.
Tinha que ser uma ópera.
Não podia ser um drama infeliz. Não teria que ser uma trágica união.
O amor se encobria de delírios que abafavam a voz da sanidade.
O amor era isso. Contudo era pleno. Inteiro. Único.
Era meu.
Eu possuir aquele anjo vadio e sedutor. O amor febril.
O que pode se atirar e nunca se arrepender pela queda.
Majestoso é o momento em que uma mulher reúne em si todas as deusas. De uma só vez. Sem pestanejar.
Foi assim que nasceu o dia. Da sua própria escuridão.
O amor que eu sentia, nascia de mim e para mim retornava.
Da rainha que elegi, recebi beijos e açoites.
Ainda assim, permanecia.
Quando ela brilhava para mim, ninguém mais via.
Porque seu corpo estava em minhas mãos e nas minhas poesias.
Esse beijo que poucos conheciam.
Não é mortal como de uma serpente.
Não. Não mata facilmente.
Ele encanta e envenena lentamente.

Tornei a amar, a ser feliz, a sonhar, a desejar.
Construindo cada dia um imenso castelo para morar.
Chegou a ser tão grandioso que se tornou impossível.
Viver tal querer tão intenso num período tão crítico.
O estágio da madureza e das renúncias que precisam fazer as pessoas que crescem.

Uma coisa que dificilmente se repete.
E que não se decide no começo.
O amor agora cria suas próprias regras
Ele não pode ficar.
Ele não pode durar.
Ele tem que acabar.
Já não e rico e nem e pobre.
Indiferente a tudo.
quase morto.
Pede pra ir se embora na pior hora.
A hora de mudar.
A hora de dizer adeus.
Quando mais forte ele se encontra. Humanizado e fixo.
Pior é sua dissolução.
É a beleza de tudo apodrecendo.
Um universo fantástico se decompondo.
Enquanto você  luta pela sua vida.
morrendo todo dia mais um pouco.
Você pede para ficar.
Mas ele não te escuta.
Ele implora pela a separação.
Ela é a consequência dos que se entregaram.

Rainha foi desde o momento que eu desejei.
Querer como se quer algo para todo sempre.
Todo dia florir e cair.

Como tudo pode mudar?
Quando tudo perde seu efeito?
Como tudo pode descabidamente se inflamar, explodir deixando pedaços por todo lado?


Visivelmente destroçado.
Totalmente detonado.
Aquele amor encantado.

Este amor não é literatura.
Embora se exponha em versos.
Em linhas que se separam.
E depois se encontram
Numa nova harmonia
Assim eu queria.

O que nunca o foi.

Qual o verdadeiro nome da deusa expulsa do céu?
Lilith a rainha da escuridão.
Aquela que disse não.
Aquela que se tornou um demônio.
Por ser rebelar.
Aqui estou, amordaçada por amar.
Aqui estou sucumbindo só em tentar me libertar.
Do julgo desse amor traidor que injetou o ódio
Nas minhas veias.

Ódio.
O amor escurecido e duro.
Ódio o lado manchado de um amor que foi limpo.
Ódio e vingança de dois corações vivos.
Ódio.
Nos corações partidos.
Seu beijo adoçou minha poesia.

Seu beijo tirou a minha vida.
Aquele amor era tudo o que eu tinha.

O céu existe para os humanos.
O inferno existe para os poetas.
Os mortais vivem linearmente, andando na seta.
Os imortais dão piruetas no espaço.

O sexo existe para os mortais
 Para os imortais existe o Tantra.
Não era minha intenção escrever sobre a mulher.
Foi um rio que se cruzou para descarregar a sua forma
Num foco de milhões de lágrimas.
Onde milhões de anos gritou Lilith.
Na escuridão de um mundo separado dela.

Primeiro era casta, depois virou puta.
Precisava ser mil vezes sacra para ser mil vezes corrompida.
Seu esplendor valia todos os diamantes da terra.
De suas entranhas saíram todas as joias mais caras do mundo.

Para a deusa foi construído um templo.
Soterrado no vale do Indo
A terra de Shiva
O deus andrógino que dançava.

Isis, Estarte, Diana, Hecate, Demeter, kali, Inana
Tantos nomes para uma única deusa
Qual delas poderá definir exatamente
O genuíno esplendor desta entidade
Que deu luz aos museus
E que dela também
 Nasceu o caos.
Kali corta e destrói.
Não quer ver nascer.
Para não matar.
Mas a final.
Todos padecem.
Isis funda os idiomas. A música e a poesia.
A ciência secreta dos poderes sobrenaturais.
A primeira bruxa.
A deusa mais famosa do Egito.
A magia e o mistério são coisas
Muito atraentes.
Para as almas polidas.
Hecate possui uma caravana de loucos errantes
Nas terras de ninguém
Compõe a liberdade e aventura
Os primeiros sonhos humanos.

Todas as outras são facetas de uma única.
Disseram as anciãs do santuário dos santuários.
La onde eu fiz o meu voto
Pedindo o sentimento de volta.

O céu foi feito para os puros.
O inferno foi feito para os desacreditados.
Mas a deusa do amor
O que fizeram dela?
O que fazem os homens de toda terra.
A guerra que mata todos os seus filhos. Todos.
Por fim a deusa foi útil para a matéria
Profanada.
Violada.
Escondida das mulheres a  revelação
Mais secreta.
Que se podia dar o amor como oferenda
Devotadamente beijar os pés.

Como fazem os cristãos nos pés da virgem.

E as sacerdotisas
Que derramam oliva
Sobre um broto de açucena.

Toda uma vida para entender seu ritmo intuitivo.
Toda uma travessia para sentir
O vínculo com ela possível.
Portanto rainha foi e serás sempre por toda
A eternidade.

Mesmo com o coração manchado
De desilusões mortais.
Hei de fazer mais versos ao longo do tempo.
Até que minha pele se abata sob o sol.
E eu envelheça cheia de coragem.

Um dia parir.
De mim veio flor
Calorzinho e cheirinho de bebe
Pela casa e por todo o jardim
Esse calor reuniu todos os meus pedaços.

A ciência secreta revelada para quem deu à luz.
Uma felicidade sem palavras.

Nasci para fazer um poema sobre aquela que eu amava
No silencio das horas.
Madrugadas que anunciavam a minha salvação.
Como se o céu estivesse se abrindo sobre a minha cabeça
Trazendo me jubilo e resignação.

Meu sol secreto
Sou toda sua.
Me toma.
 Absorva
Pois já fui transformada.
Em mim também a vejo e
Somente os desejos dos corações e as artes do tantra.
No templo que pode ser minha própria casa.
Com a pessoa que pode ser uma amiga.
Num momento em que tudo for estrangeiro.
Virá a descoberta.
De um ritual faraônico do templo de Isis.
Dinastia da Sétima Cleópatra.

Para que possam entender vou contar como no livro escrito por um escriba mulher, encontrado no sarcófago de uma deusa faraônica que morreu ao ser picada por uma cobra.
Seu diário revela que a rainha do Egito construiu um santuário no subterrâneo de Alexandria, a maior capital do mundo. O santuário fazia oferendas à Deusa Isis por quem Cleópatra sentia enorme empatia.
Uma das sacerdotisas do tempo chamada Lilith foi escolhida para dançar para a rainha no dia de seu vigésimo aniversário. A rainha descendo as escadas do santuário ao se deparar com Lilith ordenou que a beijasse os pés.
A sacerdotisa não conhecia o mundo acima de sua cabeça. Não sabia que Alexandria existia e muito menos conhecia todo o poder de sua rainha.
Havia festa do Nilo ao Mar vermelho.
Tantas flores espalhadas pelo deserto do Saara. Para homenagear a rainha do Egito.
Mas o melhor presente ela recebeu de Lilith.
Lilith então disse: Se és rainha beijar seus pés é uma ordem.
Como serva devo me inclinar para que possa banhar seus pés nas águas cálida da nossa fonte.
E minhas vestes não estão apropriadas para um beijo.
Nem as suas estão deveras prontas para o ritual.
Mas de que ritual se trata?
Perguntou a rainha do Egito.
Não sabes. Então irei te iniciar.
Esse ritual deve ser somente entre nós e nem
O fogo do templo trepidará.
Para não castrar a entrega original.
Do que falas?
Porque tamanha cerimônia para beijar meus pés.
Estás a me adular? Perguntou a rainha com ar de indignação.
Não. Respondeu Lilith se despindo para a rainha.
Então dance! Ordenou a rainha.
Danço. Respondeu Lilith, movimentando o corpo com sensualidade.
Venha!
Disse Lilith dominando a situação. Sente no seu trono.
Assim fez a rainha. Agora espere, continuou lilith.
Foi Lilith até a fonte e encheu com água uma bacia de cerâmica.
Em seguida perfumou a água com um óleo de lavanda.
Emergiu delicadamente os pés da rainha na bacia. O lavando com doçura cantando um hino feliz.
Depois de lavar os pés ela os secou com uma toalha de algodão tão alva como lagrimas de fadas.
Neste instante a rainha sentiu um ímpeto de liberdade.
A mesma frequência de Lilith que enfim beijou os pés da rainha com devoção.
Acariciando com a língua toda a anatomia de seus pés.
Nele sentiu a volúpia que as deusas invisíveis encobriram dos homens na terra.
Até que pudesse adorar uma fêmea
Devolvendo ela todos os êxtases e gozos dela roubado.
Devolver toda a sua liberdade de amar.
E cumprir seu legado.
A rainha até então nunca havia se entregado a ninguém.
A sacerdotisa Lilith iniciou a rainha nesta prática e se tornou desde então a única a beijar seus pés, até que a morte levou sua rainha para sempre.
Após ser encarcerada por Otaviano a rainha Cleópatra recebe de Lilith uma serpente
Que lhe dará um beijo fatal.
Devolvendo a estrela de onde veio
O último faraó do Egito.