sexta-feira, 20 de julho de 2018

Deserto inventado

                                                           DESERTO INVENTADO

                                                       Sylvia D'Sousa







Quando um filósofo descobriu os segredos das iniciações espirituais e revelou á sua ilha qual era a boa nova; centenas de pessoas peregrinavam na ilha de Elêusis com suas tochas acesas; elas buscavam nesta peregrinação o segredo da vida além da morte. Seus mistérios eram velados para os mundanos, que para eles representavam a maior parte da população que ignorava os efeitos e as lições dos mistérios- divididos em duas partes: Os mistérios menores- e, os mistérios maiores.
Os sacerdotes apresentavam aos gregos os mistérios esotéricos do Egito e o Egito se tornou doador cultural de Atenas, por onde andava o meu filósofo favorito: Aristócles. Foi no século IV a.c que um jovem poeta tirou o véu dos ritos da iniciação e soube de maneira poética revelar a expressão da alma; reflexo de um deus quase tão fantástico quanto os deuses caídos dos mistérios menores e quase tão sobrenaturais quanto os deuses resignados dos mistérios maiores. Meu filósofo favorito teve decepções que não se podiam notar, antes das palavras, e dos discursos muitas vezes longos. Os homens das academias de Atenas eram então os mais célebres oradores que a história da arte já teve notícia. O meu filósofo ardia em silêncio sua incrível capacidade de expressão. Em 348 a.c a história da alma tinha tanta repercussão quanto os x-mem e os heróis mais famosos dos quadrinhos. Eram lidos para milhares de pessoas na arena de modo que; o céu de olhos abertos e brilhantes podia contemplar a ilimitada expressão do homem. Aristócles, desiludido com a tomada do poder pelos trinta tiranos, deixou de ser poeta. Deixando para a posteridade apenas o jovem de beleza robusta; seu fiel busto no museu. Grande, do tamanho de uma metrópole, meu filósofo ex-poeta se escondeu atrás de um maior sonhador- O idealista.
Idealizou a república de justiça cujo método de educar a civilização incluía o menos afortunado e abastado homem social. Foi então para a sociedade que ele transferiu sua eloqüência maior; rasgando em público o ingênuo universo do poeta deixando em prantos sua alma criativa, fazendo em pedaços seu mundo particular, partindo para sempre ou quase para sempre para sua tão sonhada Cidade Bela.
Penso; sentada na minha cadeira de balanço a espera de cabelos brancos que possam me explicar; porque ele preferiu refletir a realidade. Sua cidade bela era bela no nome, ou não podemos chamar de bela a palavra: Contradição. O caminho das idéias é um balão de gás, pensei. Mas nada fez acordar, aquele  que preferiu a justiça ao invés da corrupção. Meu poeta e filósofo fundou uma escola em Alexandria e de lá pra cá fico a pensar a respeito dos mistérios da iniciação. A imitação transformada em realidade numa caverna densa e sôfrega de paixões concebidas pelo ego e pelo grito de progresso ilimitado que conspira com o movimento perpétuo da natureza. O homem mais imediatista que a sincrônica criação natural, tem como por dever que ele mesmo defende uma ânsia de transformar tudo. E pra lá ficou o sonhador da cidade bela de palácios, templos e escolas abertas como uma arena de homens que oravam; e cujos deuses podiam assisti-los.
Em volta do meu cotidiano moderno e futurístico penso se não foi ele que inventou também a palavra tecnologia ou talvez após escapar dos trinta tiranos tenha como por vingança recriado o modelo de Estado. De qualquer forma, a corrupção do Estado é uma invenção humana. Mas o mito da salvação é uma invenção além das estrelas e acima de qualquer cidade.
Poetas como ele, não podia admitir a morte. São almas que ampliam a idéia de ressurreição. Olhar para o infinito é uma qualidade que requer olhar por dentro do silêncio. De um silêncio que não existe. Ou se existe está por desaparecer para sempre.
Estou bem firmada na minha teoria de conspiração com a realidade; toda vez que eu chego perto das cidades eu vejo uma torrente de humanos cegos. Dos mais sofisticados monumentos aos mais sofisticados dos mortais o consumismo é uma chama que queima sem sentir. Mata devagar quem vive em sua teia; e esmaga lentamente quem sem ele não respira.
Há uma liberdade que fugiu da dialética do ex-poeta e filósofo. Favorito entre os grandes iniciados, considerado imortal pela a nossa civilização moderna. Meu ingênuo filho de aristocratas está em algum lugar submerso dos clássicos e seus últimos viajantes vêm naufragar uma era inteira.
O ego frisa a coisa imediata. O prazer lúdico e mal educado de pensar que na terra dos pensamentos tudo é uma anarquia. Com esta mesma velocidade vence sempre, mais que um livro de poucas páginas, vence a publicidade. Melhor, dizem os consumistas; variar a cada hora. A televisão também é uma idéia variante. A gente agora olha para enormes holofotes incandescentes virtuais; entregamos todo o resto do dia á compactas TVs de plasma; nem mesmo o sistema aéreo que repete o vôo poderão tira-los de suas salas.

 Também foi uma idéia variante a réplica. O ordinário torna-se luxo, e o original, intocável, porém, vendável. Restauradores de monumentos de grande porte. Como o castelo dos Trencavel, na cidade de Carcassone, na França; restauradores souberam maquiar a verdade muito bem; quase tão bem quanto ao túmulo de Simon de Montfort um conde que roubou o castelo do jovem visconde Trencavel. Escondem a história real para vender livrinhos chinfrins e turísticos; acima de suas cabeças, enormes torres de pedras nos chamam para dentro de sua expressão, ali, despercebida pela maioria de adormecidos empolgados com os truques de marketing. Nunca houve um mundo tão fake como este, em que o ter é mais importante que o ser. E foi pensando nisso que eu me afastei das cidades e estendi minha tenda no Deserto Inventado. Porque assim eu me identifico com os fariseus com toda a forca do seu significado; fariseus quer dizer, retirados.
Não, meu caro Platão, tu podes sucumbir com a cidade bela, real. Do tamanho do teu eterno nome. Eu, poeta resistente, vou para o deserto. Nada preciso que céu e estrelas, andanças ao dia, flautistas ao pôr-do-sol, uma caneta e uma folha de papel á noite, se não um vinho e uma distração dessas escondidas no universo feminino. Sou muito transparente para lugares obscuros. Ás vezes obscuro numa cidade nua e vadia, onde pessoas se perdem em um bloco carnavalesco e outro; por tanto tempo tive repulsa de lugares que me lembram a Babilônia, parte do espírito imundo dos anjos que caíram foram morar lá. Pode parecer prepotência afirmar isto, mas, é que eu comparo o Pelourinho com a Babilônia e três dias da semana esses anjos caídos aparecem por lá. O pelourinho é tão esquisito e ao mesmo tempo tão mágico que é impossível assimilar por completo o universo de suas entidades. Tenho certeza que alguém que a construiu trouxe consigo um pedaço da cidade dos prazeres. Mas isto só sabe aos três dias, que visitar suas ruas de pedras construídas na época da escravidão. Foi lá também que a Africa depositou suas lágrimas, e repousou seus 5023 anos de história.
Vou para o deserto. Tenho medo dos prazeres, que começam ao meio dia e terminam as uma e tal. È que no final de tanta fantasia, pela manha bem cedinho, eu preferia um café. E esquecer. Por isso acho que só vou me encontrar de novo no deserto inventado. Sou um retirado. Sou um fariseu.
De onde brilhou a estrela do reis magos que caminharam. Caminharam. Caminharam. Vislumbraram o céu vermelho e a tempestade de areia! Acho que não se pode ir por outro caminho, que pelo deserto inventado. Onde a lua é sua única imagem, por horas e horas sobre a terra.


                                   Barra do Jacuípe-Bahia, 09 de Julho de 2016

              





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