sábado, 31 de agosto de 2019

DESTINO



                                             

                                                                       DESTINO



       
                     Esta manhã de primavera na ausência de uma interpretação sensível sobre "um pleno estado de contemplação". Na verdade havia muitas dúvidas. Porque a vida a maioria das vezes não nos clarifica as escolhas. Digamos que  os caminhos se turvam; laços se rompem e como forasteiros chegamos indefesos aos silenciosos vilarejos que dormem serenos, com seus  cães nas portas e praças. As palmeiras nunca evitam o vento noturno. Nem nunca vi uma mangueira não assombrar o passante solitário. Já o tamanho do mundo esmagando o simples homem que caminha. Ele não percebe que sua vida se esgota. Nem o mundo fala seu enigma para ele. Ambos evitam refletir a imensidão de uma individualidade secreta. Faria o sol arder mil vezes mais até que a última alma pudesse revelar seu mistério único.
    Se fosse tão simples saber exatamente o que se quer não existiria juventude. O ardor de uma paixão numa mente jovem é um destino fatal desejado arduamente! Reconhecer que o mais maravilhoso é inatingível nos recolhe da porta do paraíso no instante em que percebemos a grandeza de uma coisa. E então, parece que perdemos a chance de obter a vida eterna. 

      Tentarei ser menos lógica ao interpretar esta obra de Caspar Friedrich G. Canvas:  O chamam de "oViajante sobre o mar" e seu código de acesso pode ser encontrado aos 40 anos de idade. Não reclamem de minha justa interpretação porque os convocarei para uma viagem solitária onde as lembranças molham seu rosto e as esperanças as enxuga. Os risos que se atreviam aos trinta agora parece ter mais dificuldades de se abrir. Houve um enrijecimento simbiótico e parece que a rocha não se partirá jamais! Uma calcificação dos sentimentos antes mais fluídicos e articulado. O rosto trás seus traços de possíveis apegos, medos e raivas. Quase aos final dos trinta sentimos que algo dentro se quebra e não tem mais jeito. Seria talvez a origem de um certo amadurecimento que abandona a grande ilusão de fuga que todos nós temos? Aquela linda visão de que o mar ainda que revolto  arrastará seu barco pra longe de tudo aquilo que você conhece e ama? Vai antes que seja tarde. Vai disse minha mãe. Vai disse meu pai. Vai disse o mar. A estrada pode até ter fim. Mas aos 40 anos tudo o que você acredita se estende numa única mão, direta e reta.

      Enquanto queremos demais alguma coisa mais ela se afasta de nós. E desorganiza toda a nossa experimentação. Se só por um instante pudesse respirar enquanto o mundo se arrastava e crescia acima de mim em gigantescas metrópoles metálicas e reluzente onde tudo tem um preço. Se guardasse só um resto de ilusão ; reconheceria a matéria prima do que fui feita antes de saber calçar os meus sapatos.

 Antes de desejar construir um lar. Saberia o quanto faz falta uma luz acesa em casa quando retornar. Mas o que direi para aqueles que tem apenas seu gato no sofá? Pedirei que ao acender sua lareira ou fogueira, fique quieto até que o céu revele as mais preciosas jóias de sua infinitude. 

       Seus sonhos são estas estrelas. Seu rosto é aquela constelação. Suas vestes são estes mistérios e essa física ilógica que mimetiza qualquer coisa imóvel. Disso se alimenta o sol e todos nós. 

      Se lembra como o sol brilhava por entre as folhas enquanto você fazia sua primeira descoberta? Esta é melhor de todas. Essa em que o universo não revelará á mais ninguém. 

      Le voyageur contemplant une mer de nuages.

     

Sylvia D'Sousa 



          
   















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