quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Batom Negro


Batom Negro

Nenhuma música, somente o vento e seu som é revolto.
Nenhum ser humano no salão de festa. Só um pássaro e está machucado.
talvez não voe hoje, talvez amanhã...

Nenhuma musa em carne e osso na sua noite planejada! Só um quadro anônimo exposto numa sala fúnebre onde esboça uma velha; enfiando a agulha no seu traje de Amélia meio triste.
Nenhum beijo roubado no jardim . Lamento são as coisas que te sinto.
Solidão e excesso de temor não compartido.

Vontade é que temos de fugir num arranque alcoolizado. Adentrar na madrugada vagabunda onde as cidades sujas ultrapassam a feiura do que é podre.

Entulhos de um dia anterior, poças semi-cheias, tocos de cigarro, restos de esperança
no rosto de quem ainda não havia pregado os olhos.
Nenhuma desculpa esfarrapada. A miragem do terror no exílio de si mesmo, abocanha esta dúvida sepultada no silêncio.

tua voz rouca de raiva! esmurravas o travesseiro na lembrança de uma dançarina fantasiada que prometia mais delírio. Impregnado de amor desmedido lhe via naquele momento. Onde até  abraço sufoca, a desculpa fere e a beleza sangra.

Teu sorriso de batom negro esqueceu de ver como eu me movia antes do porre!
No dia seguinte eu possuía mil anos, de fé, amor e desenganos.

Nenhum verso. Assim estava: deitada no chão contando estrelas, pensando num morto.
Nenhuma vírgula separa o que o peito empurra para a boca. Para que mordam suas línguas afiadas, rasgando o dedo na guitarra, descontando sua ira na platéia.

Nenhum ódio deixado pra depois. Pra não amanhecer com seu gritos! A espera maior era tua doçura.
Mas o vulgo dizia sem querer ser notado: Mimado! imaturo! revoltado!
Aquela tua expressão no dia seguinte não incluía o futuro juntos.
Foi um surto meu experimentado num só gole.Eis um tipo de insegurança assumida e estampada na minha cara. Morri num dia, nasci num outro.

Foi mesmo o amor que nos lançou um atributo não reconhecido.
Nenhuma palavra pra ensaiar na tua volta. Foi tu o anjo que desceu no meu sufoco, com a noite comprimida nos olhos.

A ordem era para desligarem as luzes.

A ordem era pra dançar na chuva.

A ordem era pra não fazer feio.

A ordem era pra arrancar suspiros.

Me lembro de que alguém chorava enquanto voavam ardentes malabares.
A ordem era pra cantar, e se foram as horas, os meninos ofendidos, as garotas loucas e o encanto, onde foi morar?

Talvez tenha se refugiado no semblante de quem sabe apreciar a imperfeição.

O encanto deixou de ser uma criança. E foi morar nos risos sinceros, nos soluços profundos, nas mãos do regente!!! por Deus!

Nenhum Deus. Apagaram as luzes do salão, e lá estava chorando baixinho sobre a escada
um anjo de batom negro.

Cherie.



terça-feira, 1 de agosto de 2017

Meu primeiro Livro



Meu livro
" De volta á Occitânia"



De volta à Occitania é uma narrativa baseada em fatos reais que fala sobre a existência de um movimento cristão primitivo perseguidos pelo poder temporal dos papas na extinta Occitania, onde se concentrou o maior número de Cátaros e adeptos do catarismo. O regresso à oito séculos atrás por alguém que não só conta a história destes cristãos, mas como também viveu com eles e participou deste desfecho histórico, que por possuir tantas versões, fantásticas, arruinou a verdadeira origem e mensagem daqueles bons homens que ensinava a humanidade o caminho da liberdade e do amor universal.





Embriaguês

Em minha embriagues vacilei como a madrugada,
com o dia vindo sem perdão.
Meu pavor era a estrada sem você. Era dormir nas estrelas sem poder te
mostrar a mágica,
de todas as coisas que não podem ser faladas.





Trobairitz

07 de Fevereiro

Aos meus olhos o céu púrpura dos meus sonhos de paixão
se deleitavam na imagem fúnebre da morte sem perdão.
Era o dia em que eu nascia, entre, a contemplação da terra e o lamento da escuridão. 
No meu poema jovem e inocente, reservei para a nossa noite palavras de um amor impossível no dia seguinte.
Da minha pele exalava o vício de um bêbado feliz! Que sob a chuva aguardava o calor de sua mãos que tão mágicas me florescia.
Minha caneta abria estradas que o vulgo nunca vai conhecer.
Nem o cético entenderá do que se trata esse clamor de bem e esse esplendor de mau. Um sonho que se estende até o mais solene efeito de duas almas fêmeas que se descobrem nuas no leito imaculado dos amantes virtuais.
Foi o amor que não se viveu que veio assim, me libertando do cárcere de mim mesma. E quando acordei para a vida real, a minha senda se abria em risos e poemas . E com lágrimas na face entendi o seu adeus.

Minha vida estava nova. Pois, eu tinha a chave da mais solitária criação. Um poeta que nascia, um aventureiro sem destino, numa cidade que dormia, num caminho cheio de peregrinos. Escarpadas montanhas me ocultava o júbilo dos perfeitos enquanto me arrastava a conhecer tudo o que o céu escondia. 
  
Havia na sua voz a indignação mais humana como se estivesse se perdido no cenário futurista sem raiz e estivesse atravessando a era que nunca me compreenderia. Pactos e laços nunca poderão ser iguais.  O beijo mais doce do amor era quase surreal, mas bastava fechar os olhos e viver as duas faces: a que a ilusão enfeitava e a que a realidade exibia. Nunca poderia suspeitar que não existia romance algum, entre duas estrelas efêmeras, antes fosse tarde para amar um amor de paixão.

Nunca poderia deixar de ser um segredo aquele dia em que resolvi te seguir.
Nunca deveria denunciar minha inquietação e nem meu encanto por ti.
Foram os meus prantos que te diluiu em mortal me levando o melhor dos dons. E nas ruínas do castelo destruído plantei uma única flor.

Divino é o sino que anuncia o anjo. É o silêncio dos que amam. Mas eu só compreendi que a vida estava em outro lugar quando venci toda a condenação da vertigem. Não era momento de recuar! Fui contagiada, sofri o encanto, conheci o tormento delicioso! Talvez o conhecimento seja o esforço de um espírito que resiste e se defende no seio da tentação. Meditei a vertigem e a deixei em paz até sumir...

Deus, quanta renúncia! Como dói perder uma amiga!
Por mais que tentasse saltar as barreiras foi a luta que nunca quis.
O palco da felicidade me apresentou  "o amor recíproco infeliz."

Então deixei ir a ilusão que fui capaz de conceber como a coisa mais importante da minha vida. 
Para estar na graça de uma presença que só poderia existir por um instante.

Sylvia D' Sousa

7 de Fevereiro
Para
CcCco

O tempo e o mar

Cai a tarde simbólica dos nossos desesperados credos. Cai a capa, a espada cega, caem as flores, cai o homem. Veremos a felicidade se partir no infinito, enquanto esperamos por uma reconstituição. Haverão corações suaves, cruéis, fiéis e a fragilidade dos injustos que brincam com as nossas dores, violentando sagradas lágrimas. Nossa ingênua escravidão foi longa! Mas abra os braços e sinta seu velho e peculiar amor; tocar com seu perfume, teu caloroso corpo, sua flamejante alma, assim docemente amanhece. Olhemos para longe, onde se perde a praia. Brumas escondem algo que não precisamos saber. Se abraçam um dia com outro e a nossa ânsia de prazer não seca. Cai nossa couraça, podemos tocar outra rara possibilidade de salvação. E da turva razão a paixão fatigante se veste de pensamentos sem sentido. Acorda-se no resgate de nós mesmos que ao fizermos o que bem entendemos conosco paramos por um momento escutando nosso cansaço. São como as ondas mais fracas; o pouso do pássaro em sua inesgotável jornada. Cai o medo. Cai a majestade. Todas. Todas as tardes cai um pouco do mundo em nós! Na noite que se aproxima saberemos manter a calma sem sujar a alma,com elegância as ondas vem e vão. E se vão os nossos versos, as nossas lágrimas e os nossos amores.

Um ensaio sobre a vida

Nos meus jovens anos, o amor não era coisa fácil, mas eu tinha força e poucos desenganos. Assim podia escrever cartas de amor, poesias eróticas, contos diversos e viver metade do dia em casa e a outra metade no bar. Na escola no início também não era fácil, por algum motivo eu não gostava de ser popular. Escrevia diários onde podia lê de novo aquelas frases que no início era a minha única ferramenta. Em casa também não era fácil, pois, viver de acordo com o que os outros querem é uma loucura e no mínimo desestimulante. Assim comportei em mim alguns miseráveis anos adolescentes de boteco e mesa de bilhar. Porém eu escrevia e ser criativa nunca foi difícil para mim, assim que percebi que não fazia parte do clube dos iletrados comprei uma passagem para sair daquela bairro, daquela casa e daquela família. Não era a pobreza econômica que me afetava, era o deboche dos pobres de espírito. Assim a biblioteca pública depois do bar servia de divã para minha alma incansável de procurar; alguma pérola no meio de tantos porcos. Tudo porque eu não me acertava com aquele lugar. Mas depois de alguns anos, quando comecei a pagar a minha comida e a minha vidinha insólita numa cidade aberta á todo tipo de loucos, percebi que não era o lugar. Qualquer maior conforto não podia liquidar aquele meu desgosto de está onde estava. Certo dia, peguei tudo o que tinha que cabia certinho dentro de uma mochila e fui em busca de uma aventura de onde jamais voltei. E foi aí que me perdi. E não queria mais me encontrar, porque podia ser diversa e me libertar do estereótipo e pejorativo que faziam de mim alguém muito perto de ser descartável. E isso eu não podia suportar. Incansavelmente não me limitei á nada que fosse o 'Certo" de fazer. A hipocrisia de muitos me desestimulou á ser no âmago ou desde as vísceras a sinceridade absoluta. E minhas mentiras foram crescendo á ponto de me dissolver de novo aos meus 35 anos. Por fim poucos de minhas relações pessoais souberam me interpretar. E é por isso que vivo hoje ás margens de um rio onde o dia nunca chega. Embora viva na sombra não me remete á nenhuma inferno. E embora eu não me embriague mais, estou sempre em estado de inundação extrema. Nem faço apologias á nenhum meio de transporte para dentro. Eu nem sei muito bem como meditar. Para mim em algum momento a beleza aparece e vai embora como o rosto de uma moça na janela de um automóvel que passa. E essa cena nunca mais se repetirá. Sei que tudo está em decomposição, inclusive as idéias, as repúblicas, as guerras e até mesmo o amor carnal. Jamais alguém que eu queria que fosse foi comigo para cama. Porque eu amei como um poeta clássico! Fui um tipo de DANTE do início ao fim. Mas o Dante apaixonado e não o Dante que moralizou a morada do inferno para as almas encharcadas de tantos pecados capitais. Jamais entendi o silêncio de Deus. Nunca entendi o silêncio dos mais sofridos.Jamais entendi a voz do mal. Fui em busca da música no acrópole de um Teatro onde a aristocracia havia me proibido de entrar, mas eu entrei com meu vestido de gala. E deixei toda a orquestra me contagiar. Quando enfim a melhor lágrima molhou meu rosto, já se passava mais de 39 anos. Meu jardim de delícias havia morrido. E todos os bons gostos que um dia possuir, ficaram amargos na boca. Da morte que sempre fugir, comecei a me atrair pelo fim. Mas ainda é cedo? Cedo para abandonar sonhos que nunca mais saberei sonhar. Morreram em mim numa manhã onde vi pela primeira um corpo indigente e desse ser, nada restou; nem sua estória, nenhuma nota, nenhum amigo. Ele ficou à beira de uma estrada onde ninguém pára. Onde há uma cruz tentando dizer que a morte existe. E que a estrada tem final para alguns enquanto você prossegue com a sua viagem. Ser eterno é uma realidade relativa. Querer ser eterno é uma liberdade de quem sabe que é. Sou eterna além de tudo que se decompõe. Aos 40 anos, ás margens desse rio sereno, sol algum pode ser mais soberano que a minha decisão de ser o quero ser. Espaço infinito algum é maior que a galáxia que mora dentro de mim. E isso não tem nada a ver com Ego ou alma. Não há filosofia que explique ou tente explicar no que me transformei. Nem posso dizer ou sublinhar o que sou agora. Não devo por motivos íntimos me escorar na vaidade bestial do comportamento humano. Quando existo pra mim já basta. A inquietude humana que nos lança aos desafetos e á alienação mais gloriosa que seja , é uma estação que eu nunca paro; para esperar que algo especial aconteça, ou que enfim eu encontre a paz infinita. O que é isso paz infinita? O que é mesmo paz? O ser humano criou seu inferno e seu paraíso para além da vida no corpo. Mas só quem está morrendo num leito é que sabe que ter um corpo é um fardo insuportável e é por isso que um dia a vida dentro dele tem que acabar. Não persigo o mal e nem o bem. Nem sei mesmo se estou na luz. Sei que tenho aqui estas palavras.