Sylvia D'Sousa
Quando um filósofo descobriu os segredos das
iniciações espirituais e revelou á sua ilha qual era a boa nova; centenas
de pessoas peregrinavam na ilha de Elêusis com suas tochas acesas; elas
buscavam nesta peregrinação o segredo da vida além da morte. Seus mistérios
eram velados para os mundanos, que para eles representavam a maior parte da
população que ignorava os efeitos e as lições dos mistérios- divididos em duas
partes: Os mistérios menores- e, os mistérios maiores.
Os sacerdotes apresentavam aos gregos os mistérios
esotéricos do Egito e o Egito se tornou doador cultural de Atenas, por onde
andava o meu filósofo favorito: Aristócles. Foi no século IV a.c que um jovem
poeta tirou o véu dos ritos da iniciação e soube de maneira poética revelar a
expressão da alma; reflexo de um deus quase tão fantástico quanto os deuses
caídos dos mistérios menores e quase tão sobrenaturais quanto os deuses
resignados dos mistérios maiores. Meu filósofo favorito teve decepções que não
se podiam notar, antes das palavras, e dos discursos muitas vezes longos. Os
homens das academias de Atenas eram então os mais célebres oradores que a
história da arte já teve notícia. O meu filósofo ardia em silêncio sua incrível
capacidade de expressão. Em 348 a.c a história da alma tinha tanta repercussão
quanto os x-mem e os heróis mais famosos dos quadrinhos. Eram lidos para
milhares de pessoas na arena de modo que; o céu de olhos abertos e brilhantes
podia contemplar a ilimitada expressão do homem. Aristócles, desiludido com a
tomada do poder pelos trinta tiranos, deixou de ser poeta. Deixando para a
posteridade apenas o jovem de beleza robusta; seu fiel busto no museu. Grande,
do tamanho de uma metrópole, meu filósofo ex-poeta se escondeu atrás de um
maior sonhador- O idealista.
Idealizou a república de justiça cujo método de
educar a civilização incluía o menos afortunado e abastado homem social. Foi
então para a sociedade que ele transferiu sua eloqüência maior; rasgando em
público o ingênuo universo do poeta deixando em prantos sua alma criativa,
fazendo em pedaços seu mundo particular, partindo para sempre ou quase para
sempre para sua tão sonhada Cidade Bela.
Penso; sentada na minha cadeira de balanço a espera
de cabelos brancos que possam me explicar; porque ele preferiu refletir a realidade. Sua
cidade bela era bela no nome, ou não podemos chamar de bela a palavra:
Contradição. O caminho das idéias é um balão de gás, pensei. Mas nada fez
acordar, aquele que preferiu a justiça ao
invés da corrupção. Meu poeta e filósofo fundou uma escola em Alexandria e de
lá pra cá fico a pensar a respeito dos mistérios da iniciação. A imitação
transformada em realidade numa caverna densa e sôfrega de paixões concebidas
pelo ego e pelo grito de progresso ilimitado que conspira com o movimento
perpétuo da natureza. O homem mais imediatista que a sincrônica criação
natural, tem como por dever que ele mesmo defende uma ânsia de transformar tudo.
E pra lá ficou o sonhador da cidade bela de palácios, templos e escolas abertas
como uma arena de homens que oravam; e cujos deuses podiam assisti-los.
Em volta do meu cotidiano moderno e futurístico
penso se não foi ele que inventou também a palavra tecnologia ou talvez após
escapar dos trinta tiranos tenha como por vingança recriado o modelo de Estado.
De qualquer forma, a corrupção do Estado é uma invenção humana. Mas o mito da
salvação é uma invenção além das estrelas e acima de qualquer cidade.
Poetas como ele, não podia admitir a morte. São
almas que ampliam a idéia de ressurreição. Olhar para o infinito é uma
qualidade que requer olhar por dentro do silêncio. De um silêncio que não
existe. Ou se existe está por desaparecer para sempre.
Estou bem firmada na minha teoria de conspiração com
a realidade; toda vez que eu chego perto das cidades eu vejo uma torrente de
humanos cegos. Dos mais sofisticados monumentos aos mais sofisticados dos
mortais o consumismo é uma chama que queima sem sentir. Mata devagar quem vive
em sua teia; e esmaga lentamente quem sem ele não respira.
Há uma liberdade que fugiu da dialética do ex-poeta
e filósofo. Favorito entre os grandes iniciados, considerado imortal pela a
nossa civilização moderna. Meu ingênuo filho de aristocratas está em algum
lugar submerso dos clássicos e seus últimos viajantes vêm naufragar uma era
inteira.
O ego frisa a coisa imediata. O prazer lúdico e mal
educado de pensar que na terra dos pensamentos tudo é uma anarquia. Com esta
mesma velocidade vence sempre, mais que um livro de poucas páginas, vence a
publicidade. Melhor, dizem os consumistas; variar a cada hora. A televisão também
é uma idéia variante. A gente agora olha para enormes holofotes incandescentes
virtuais; entregamos todo o resto do dia á compactas TVs de plasma; nem mesmo o
sistema aéreo que repete o vôo poderão tira-los de suas salas.
Também foi
uma idéia variante a réplica. O ordinário torna-se luxo, e o original,
intocável, porém, vendável. Restauradores de monumentos de grande porte. Como o
castelo dos Trencavel, na cidade de Carcassone, na França; restauradores
souberam maquiar a verdade muito bem; quase tão bem quanto ao túmulo de Simon
de Montfort um conde que roubou o castelo do jovem visconde
Trencavel. Escondem a história real para vender livrinhos chinfrins e
turísticos; acima de suas cabeças, enormes torres de pedras nos chamam para dentro
de sua expressão, ali, despercebida pela maioria de adormecidos empolgados com
os truques de marketing. Nunca houve um mundo tão fake como este, em que o ter
é mais importante que o ser. E foi pensando nisso que eu me afastei das cidades
e estendi minha tenda no Deserto Inventado. Porque assim eu me identifico com
os fariseus com toda a forca do seu significado; fariseus quer dizer, retirados.
Não, meu caro Platão, tu podes sucumbir com a cidade
bela, real. Do tamanho do teu eterno nome. Eu, poeta resistente, vou para o
deserto. Nada preciso que céu e estrelas, andanças ao dia, flautistas ao
pôr-do-sol, uma caneta e uma folha de papel á noite, se não um vinho e uma
distração dessas escondidas no universo feminino. Sou muito transparente para
lugares obscuros. Ás vezes obscuro numa cidade nua e vadia, onde pessoas se
perdem em um bloco carnavalesco e outro; por tanto tempo tive repulsa de lugares
que me lembram a Babilônia, parte do espírito imundo dos anjos que caíram foram
morar lá. Pode parecer prepotência afirmar isto, mas, é que eu comparo o
Pelourinho com a Babilônia e três dias da semana esses anjos caídos aparecem
por lá. O pelourinho é tão esquisito e ao mesmo tempo tão mágico que é
impossível assimilar por completo o universo de suas entidades. Tenho certeza
que alguém que a construiu trouxe consigo um pedaço da cidade dos prazeres. Mas
isto só sabe aos três dias, que visitar suas ruas de pedras construídas na
época da escravidão. Foi lá também que a Africa depositou suas lágrimas, e
repousou seus 5023 anos de história.
Vou para o deserto. Tenho medo dos prazeres, que
começam ao meio dia e terminam as uma e tal. È que no final de tanta fantasia,
pela manha bem cedinho, eu preferia um café. E esquecer. Por isso acho que só
vou me encontrar de novo no deserto inventado. Sou um retirado. Sou um fariseu.
De onde brilhou a estrela do reis magos que
caminharam. Caminharam. Caminharam. Vislumbraram o céu vermelho e a tempestade
de areia! Acho que não se pode ir por outro caminho, que pelo deserto
inventado. Onde a lua é sua única imagem, por horas e horas sobre a terra.
Barra do Jacuípe-Bahia, 09 de Julho de 2016


Maravilhoso texto.
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