terça-feira, 1 de agosto de 2017
Um ensaio sobre a vida
Nos meus jovens anos, o amor não era coisa fácil, mas eu tinha força e poucos desenganos. Assim podia escrever cartas de amor, poesias eróticas, contos diversos e viver metade do dia em casa e a outra metade no bar.
Na escola no início também não era fácil, por algum motivo eu não gostava de ser popular. Escrevia diários onde podia lê de novo aquelas frases que no início era a minha única ferramenta. Em casa também não era fácil, pois, viver de acordo com o que os outros querem é uma loucura e no mínimo desestimulante. Assim comportei em mim alguns miseráveis anos adolescentes de boteco e mesa de bilhar. Porém eu escrevia e ser criativa nunca foi difícil para mim, assim que percebi que não fazia parte do clube dos iletrados comprei uma passagem para sair daquela bairro, daquela casa e daquela família. Não era a pobreza econômica que me afetava, era o deboche dos pobres de espírito. Assim a biblioteca pública depois do bar servia de divã para minha alma incansável de procurar; alguma pérola no meio de tantos porcos.
Tudo porque eu não me acertava com aquele lugar. Mas depois de alguns anos, quando comecei a pagar a minha comida e a minha vidinha insólita numa cidade aberta á todo tipo de loucos, percebi que não era o lugar. Qualquer maior conforto não podia liquidar aquele meu desgosto de está onde estava. Certo dia, peguei tudo o que tinha que cabia certinho dentro de uma mochila e fui em busca de uma aventura de onde jamais voltei.
E foi aí que me perdi. E não queria mais me encontrar, porque podia ser diversa e me libertar do estereótipo e pejorativo que faziam de mim alguém muito perto de ser descartável. E isso eu não podia suportar.
Incansavelmente não me limitei á nada que fosse o 'Certo" de fazer. A hipocrisia de muitos me desestimulou á ser no âmago ou desde as vísceras a sinceridade absoluta. E minhas mentiras foram crescendo á ponto de me dissolver de novo aos meus 35 anos. Por fim poucos de minhas relações pessoais souberam me interpretar. E é por isso que vivo hoje ás margens de um rio onde o dia nunca chega. Embora viva na sombra não me remete á nenhuma inferno. E embora eu não me embriague mais, estou sempre em estado de inundação extrema. Nem faço apologias á nenhum meio de transporte para dentro. Eu nem sei muito bem como meditar. Para mim em algum momento a beleza aparece e vai embora como o rosto de uma moça na janela de um automóvel que passa. E essa cena nunca mais se repetirá.
Sei que tudo está em decomposição, inclusive as idéias, as repúblicas, as guerras e até mesmo o amor carnal. Jamais alguém que eu queria que fosse foi comigo para cama. Porque eu amei como um poeta clássico! Fui um tipo de DANTE do início ao fim. Mas o Dante apaixonado e não o Dante que moralizou a morada do inferno para as almas encharcadas de tantos pecados capitais. Jamais entendi o silêncio de Deus. Nunca entendi o silêncio dos mais sofridos.Jamais entendi a voz do mal. Fui em busca da música no acrópole de um Teatro onde a aristocracia havia me proibido de entrar, mas eu entrei com meu vestido de gala. E deixei toda a orquestra me contagiar. Quando enfim a melhor lágrima molhou meu rosto, já se passava mais de 39 anos.
Meu jardim de delícias havia morrido. E todos os bons gostos que um dia possuir, ficaram amargos na boca. Da morte que sempre fugir, comecei a me atrair pelo fim. Mas ainda é cedo? Cedo para abandonar sonhos que nunca mais saberei sonhar. Morreram em mim numa manhã onde vi pela primeira um corpo indigente e desse ser, nada restou; nem sua estória, nenhuma nota, nenhum amigo. Ele ficou à beira de uma estrada onde ninguém pára. Onde há uma cruz tentando dizer que a morte existe. E que a estrada tem final para alguns enquanto você prossegue com a sua viagem.
Ser eterno é uma realidade relativa. Querer ser eterno é uma liberdade de quem sabe que é. Sou eterna além de tudo que se decompõe. Aos 40 anos, ás margens desse rio sereno, sol algum pode ser mais soberano que a minha decisão de ser o quero ser. Espaço infinito algum é maior que a galáxia que mora dentro de mim. E isso não tem nada a ver com Ego ou alma. Não há filosofia que explique ou tente explicar no que me transformei. Nem posso dizer ou sublinhar o que sou agora. Não devo por motivos íntimos me escorar na vaidade bestial do comportamento humano. Quando existo pra mim já basta. A inquietude humana que nos lança aos desafetos e á alienação mais gloriosa que seja , é uma estação que eu nunca paro; para esperar que algo especial aconteça, ou que enfim eu encontre a paz infinita. O que é isso paz infinita? O que é mesmo paz? O ser humano criou seu inferno e seu paraíso para além da vida no corpo. Mas só quem está morrendo num leito é que sabe que ter um corpo é um fardo insuportável e é por isso que um dia a vida dentro dele tem que acabar.
Não persigo o mal e nem o bem. Nem sei mesmo se estou na luz. Sei que tenho aqui estas palavras.
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Gostei Cherie! Seu livro deve ser muito bom! Comoartilheu no face! Me impressionou a sinceridade oculta e a noção amoral da realidade 3D! Parabéns querida! Bj de luz
ResponderExcluirObrigada.Sempre que eu estiver inspirada vou escrever aqui. Agora estou postando material do meu arquivo velho. Bjs
ResponderExcluirTua escrita flui, às vezes suave outras vezes rascante.
ResponderExcluirE como o mar. O leitor desavisado corre um sério risco de ser por ela engolido.
Bj querida
Da loucura eu aprendi a compor o impulso de quem pode a qualquer momento, parar de respirar. Bjs
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